Deve ser legal um busão no Senegal [Daniel Cariello]

Posted on 28/07/2016

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Daniel Cariello*

Obs: A primeira parte desse texto está aqui

O Demba tem um táxi coletivo. Por táxi, entenda-se um carro meio caindo aos pedaços, com um fio que deve ser puxado para trancar a porta por dentro, uma janela que não abre e, se abrir, não fecha, e o cinto do passageiro da frente que deve ser entrelaçado com o do motorista, já que só tem um encaixe. O velocímetro não funciona, assim como o marcador de combustível. Mas ele tem uma relação tão simbiótica com seu carro, também seu meio de vida, que sabe dizer exatamente a velocidade e sente quando precisa abastecer. Confesso que fiquei meio assustado na primeira vez que entrei ali.

Do aeroporto de Dakar, Demba nos levou para uma vila chamada Tubab Dialaw. O trajeto de cerca de 80 km, à noite e sem trânsito, foi vencido em cerca de 2 horas. Alguns dias depois, ele nos levou a Joal, a uns 100 km ao sul de Tubab. Mais uma vez, quase 2 horas de trajeto. “Como pode demorar tanto?”, pensei.

De Joal íamos para Sine Saloum, uma ilha ali perto. O Demba não pôde ficar, mas passou direitinho as instruções.

– Para ir ao cais de onde sai o barco, pegue um 7 Lugares. E não pague mais de mil francos. Quando você voltar, amanhã à noite, o ônibus vai parar onde eu normalmente paro o táxi. Aí eu levo vocês pra casa.

O 7 Lugares

Foi só quando cheguei no ponto de partida do 7 Lugares que entendi o nome do transporte. É um carro normal, que eles atocham até ter 7 pessoas, motorista incluso. Dois no banco da frente, quatro no banco de trás e Alá – já que é um país muçulmano – protegendo a todos.

– Quanto é?

– Dois mil.

– Tá caro.

– Mil e quinhentos.

– Pago mil.

– Mil pra você e duzentos pra bagagem.

– Pago mil.

– Sobe.

Depois de negociar o preço, uma atividade tão corriqueira por lá quanto beber água, montei no táxi e coloquei a mochila de 60 litros atrás. O bagageiro de cima estava entupido de caixas e umas cinqüenta vassouras de palha. Numa curva, todas caíram.

– Vassoura! Vassoura! Vassoura!

O motorista parou e descemos para catá-las, esparramadas pela estrada de terra. Quando vi o tamanho de todos do lado de fora, duvidei que fôssemos caber novamente naquele carro. Mas coubemos, ainda não sei bem como. E logo depois chegamos ao cais.

N’Diaga-N’Diaye e a relativização da realidade

No dia seguinte, pra voltar, a teoria era simples: um 7 Lugares até uma pequena cidade perto e, depois, dois ônibus. Como demoramos 2 horas na ida, a volta, nos meus cálculos, levaria cerca de 3 horas.

O 7 Lugares foi moleza. Já estava craque. Ele nos deixou em frente ao ponto de partida dos N’Diaga-N’Diaye, os ônibus senegaleses. O nosso estava parado, esperando encher.

– Quanto é?

– Mil.

– Me disseram que era trezentos.

– Na verdade é quinhentos.

– Toma trezentos aqui.

– Sobe.

Pois bem, subi. E eu não sabia ainda que cruzar aquela porta era cruzar um portal sem volta. Ninguém continua o mesmo depois de encarar uma viagem de N’Diaga-N’Diaye.

Quanto entrei, o ônibus estava meio vazio. Peguei a cadeira logo atrás do motorista. Ele entrou. Sentou. Tentou dar partida. Não pegou. Despreocupado, desceu e começou a bater papo com um carinha que passava. Comprou um saco de amendoim e voltou com dois potes grandes sem tampa, com um líquido desconhecido, e os colocou ao lado dos seus pés. Tentou mais uma vez dar a partida. Parecia que não ia, mas foi.

Uma coisa que ainda não inventaram no Senegal é parada de ônibus. Toda a movimentação de sobe-e-desce é feita com alguns códigos. Se quer subir, fique ao lado da estrada e acene. Não importa onde você esteja, o ônibus vai parar. E se quer descer, dê duas batidas no teto. Não tem campainha nem nada. E se gritar ele não vai entender. Só pára mesmo com as batidas.

Dá pra apertar um pouquinho?

“Nem é tão ruim”, cheguei a pensar. Mas essa sensação acabou logo. Alguém acenava, ele parava. Andava uns 100 metros e outra pessoa fazia sinal. Parava de novo. Um pouquinho mais, outro passageiro balançava a mão para subir. Não demorou pra eu começar a achar que tava cheio demais. Tive que colocar a mochila no colo. Procurei uma daquelas placas que indicam a capacidade máxima de carga. Não tinha. No vidro da frente, apenas um papelão escrito à mão, indicando nosso destino, e umas fotos desbotadas de alguém muito forte e sem camisa, que treinava para participar de algum campeonato de halterofilismo, ou algo do gênero.

Uma hora, quando realmente não cabia mais ninguém, o motorista viu um conhecido. Parou no meio da estrada e começou a bater papo com ele. Durou uns três minutos. Enquanto isso, umas mulheres enfiavam pelas janelas saquinhos diversos com castanha de caju, pimentão ou tomate, que vendiam. Não comprei, mas vi um sujeito que encarou o pimentão. Pimentão está, ao lado do palmito, na lista dos alimentos com “p” que eu detesto. Panettone encabeça a relação.

Papo encerrado, seguimos. Cinco minutos depois, um cheiro de gasolina no ar. O motorista para bruscamente e vejo que um dos potes que ele carregava – cheios de combustível, descobri – tombou. Ele começa a falar rapidamente com um passageiro, que saca uma garrafa de água e joga em cima. O outro pote, ele acha por bem despejar seu conteúdo no tanque do ônibus. Fiquei com medo de dar um xabu geral. Mas do meu lado um religioso olhava para tudo, impassível. Se Alá fosse salvar alguém ali, provavelmente seria ele. Como eu estava ao lado, talvez entrasse na rebarba. Aí relaxei.

Fim da primeira viagem. Todo mundo desce. Ainda estava longe do ponto de encontro com o Demba, em outra cidade, tinha que pegar mais um N’Diaga-N’Diaye. Um lado meu queria entrar logo no ônibus. O outro se recusava. Ignorei solenemente o meu senso de sobrevivência e montei no primeiro que parou, uma hora e meia depois, pois todos os outros estavam tão absurdamente cheios que passaram direto. Estava tão cansado que nem insisti na pechincha.

– Quanto é?

– Mil.

– Oitocentos?

– Mil.

– Feito.

Cem quilômetros e sete horas depois de partir, chegamos ao posto de gasolina e mini-rodoviária improvisada, onde deveríamos encontrar Demba. Quando consegui me livrar de uma centena de taxistas que vinham oferecer transporte, vi meu amigo de longe. Ele nem era bem um amigo, mas naquela hora foi alçado a posto de quase irmão. Dei um abraço forte, que ele não esperava.

– Demba!

– Daniel!

– Você não sabe como estou feliz em te ver.

Dessa vez, o carro do Demba era melhor do que qualquer Rolls Royce.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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