Os lotes do coronel [Carlos Castelo]

Posted on 27/07/2016

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Carlos Castelo*

Eu devia ter uns 10 anos. Meu pai chegou em casa com uns papéis oficiais. Coisas cartoriais, documentos em tubos plásticos. Chamaram-me logo a atenção os carimbos, todos multicoloridos. Durante o jantar ele nos falou, muito animado:

– Agora temos praia pra ir!

Minha mãe, sempre cética nas soluções mágicas, fechou logo o cenho. Ele não desanimou.

– Um coronel foi à fábrica e me ofereceu três lotes, ficam numa ilha. No sábado cedinho vamos ver a compra.

Quando ouviu a palavra “compra” minha mãe levantou-se da mesa e disse que ia rezar. Ficamos só papai, a caçula e eu à mesa.

– Vai ser muito legal a viagem. E o nome do lugar já é muito bacana, nos disse ele, sorrindo: Ilha Comprida.

Sábado, cinco da manhã, partíamos com a indefectível comida de viagem nordestina: o frito de capão. E, além de papai, mamãe, maninha e eu, foram junto a avó e Cibele, nossa collie.

Papai dissera que a viagem seria bem rápida. Minha admiração por ele me impede até hoje de admitir que houve alguma leviandade nessa informação. Mas foi um dos percursos mais longos e cansativos que fiz.

Talvez pela condição das estradas à época, talvez por ele ter se perdido ou ainda pelo fato da cachorra vomitar a cada meia hora. Sem contar a chuva que, durante a passagem por uma serra interminável, açoitou-nos inclemente.

O fato é que chegamos em Iguape à noitinha. E era preciso achar um lugar pra dormir. Só que ainda faltavam 17 quilômetros de areia para chegarmos ao local dos lotes.

Um certo nervosismo começou a tomar lugar entre nós. Especialmente porque minha avó começou a ter uma de suas crises de asma.

Felizmente, a bombinha dela funcionou e conseguimos chegar ilesos ao nosso pedaço de paraíso.

Ali decidiu-se que vovó e Cibele dormiriam na perua. E nós na praia.

O veículo familiar estava bem estacionado, havia lua cheia, fazia calor. Por que não pousar ali mesmo?

Mamãe revoltou-se, por que não eu dentro do carro? E os siris? E as cobras? Mas logo conformou-se, encolheu-se e dormiu com a maninha no colo.

Encostei-me em meu pai. Em contraste com as circunvoluções hipnóticas do Atlântico, aquele homem moreno parecia maior que o Pacífico.

Demorei para relaxar. Entretanto, apesar da precariedade do meu leito, uma sensação de calma me preencheu. Mirar os olhos da água fazia os meus vislumbrarem o futuro. O que me reservaria aquela força estranha da natureza, aqueles cheiros marinhos soprados ao vento quente?

Acordamos todos com uma apoplexia daquelas da vovó. A cada tossida, uma latida de Cibele. A bombinha entrou em ação e o silêncio voltou a reinar. Só o vento falava.

Meu pai espreguiçou-se. Pegou um mapa e começou, como um índio batedor da série Bonanza, a escarafunchar milimetricamente o chão para descobrir onde ficavam os lotes que havia adquirido do coronel.

Ficamos todos encostados na perua, comendo frito, e vendo ele tatear a areia contemplando com o que havia no mapa, já rasgado. Depois de uns dez minutos de conferências, ele foi indo para a beira da água, que estava bem bravia naquela aurora. Entrou até a primeira arrebentação, de roupa e tudo, e ouvimos ele gritar:

– Porra!!!

Voltou cabisbaixo, chamou minha mãe de lado, sussurrou-lhe algo, a boca entortada para que ninguém o ouvisse. No momento seguinte começamos a arrumar os trens para retornar a São Paulo.

Fiquei aturdido. Mas, nesse tempo, menino não tinha o direito de indagar o que acontecia no mundo dos adultos. Muitos anos depois vim a saber que os lotes que o coronel vendera a papai ficavam dentro do mar.

Mas, mesmo que soubesse naquela manhã que ele fora enganado, continuaria achando-o um pai mais poderoso que o oceano Atlântico.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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