A duquesa [Elyandria Silva]

Posted on 26/07/2016

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Elyandria Silva*

Soube da novidade pela mãe, ela foi a escolhida. Exultante e feliz, pensando que estava se casando por amor, embora um amor ainda não consumado porque não se conheciam, sai da casa dos pais para começar uma nova vida ao lado do marido, um homem bonito, rico e poderoso, cobiçado por outras mulheres. Uma vida que prenunciava o luxo, a riqueza, o poder e a paixão, mas na primeira noite já é possível perceber que a decepção e a ilusão seriam companheiras constantes.

A época não era propícia a romantismos e promessas de amor eterno, isso era algo mais raro. A época era de uniões “carimbadas” por interesses monárquicos e conveniências presas aos formalismos sociais da realeza. Falo do filme A DUQUESA, que conta a história da jovem Georgiana que se casa, aos 18 anos, com o duque de Devonshire e embarca num destino de profundo sofrimento, traições, solidão e busca pela liberdade perdida. Na primeira noite de casada se espanta com a frieza e silêncio do marido bem como com a primeira lição para a boa convivência: “tire a roupa, deite e fique quieta”. Mulher inteligente, com ideias feministas e modernas, muito à frente do seu tempo, a então duquesa se indigna cada vez mais ao perceber que o marido não só a ignora e despreza publicamente, criando situações que a constrange, como também deixa claro que os cachorros são muito mais importantes do que ela. Georgiana passa a ser uma sombra, alguém sem importância dentro de sua própria casa e o que é pior, tem a certeza de que o duque quer apenas um filho seu, um filho homem para se tornar o herdeiro. Ela só consegue gerar meninas. Veio a primeira filha, a segunda, que são criadas juntamente com uma outra menina, fruto do envolvimento de uma noite do duque com uma serviçal do castelo, antes do casamento, que a duquesa ama e cuida como se fosse sua.

Para se fazer marcante e contrabalancear o casamento infeliz a duquesa envolve-se na política, faz campanha para um partido, para eleição do primeiro ministro e apoia as questões revolucionárias francesas e americanas. É no envolvimento com política e com a cultura que reencontra um antigo pretendente, não pensa duas vezes em ter um amante e por ele se apaixona sem culpa já que o marido dorme com a amiga diante de seus olhos e em sua própria casa.

Na sequência dessa desastrosa crônica da infelicidade conjugal entra a parte das traições públicas e não públicas. São muitas, o duque é mulherengo e assedia outras mulheres sem nenhuma discrição. O casamento atinge proporções insustentáveis quando se torna público o tal caso entre o duque e a melhor amiga, uma jovem senhora convidada a ficar em sua casa para se proteger do marido violento, conhecido como Sr. Foster. Absurdamente humilhada Georgiana abandona o lar e as filhas e volta para a casa da mãe, uma escolha mal concebida para uma época em que manter as aparências era fundamental, estava acima de tudo. O duque assume o romance com a amante que se apossa do lugar da duquesa, antes sua melhor amiga. O sofrimento e as submissões humilhantes impostas causam ao telespectador uma empatia piedosa para com a duquesa, porém, ainda mais chocante do que o comportamento, para os padrões sociais de hoje, absurdos do frio e arrogante duque é a descoberta de que é ainda possível encontrar “duquesas” solitárias e sofridas por aí, mesmo em tempos de tanta liberdade e avanços sociais. Sim, “duquesas” se escondem por detrás de casamentos desastrosos, porém, extremamente confortáveis do ponto de vista financeiro e social e quando percebo algo assim concluo que não evoluímos tanto quanto sonhamos, não concretizamos a fábula feliz da mulher livre e independente.

Não é nenhuma novidade que a mulher era submissa, dependia financeiramente do marido e era banida, em vários aspectos, caso se separasse. Ameaçada de perder as filhas e nunca mais poder vê-las, sem saída ou qualquer outra opção, é obrigada a voltar para casa e conviver num estúpido e inaceitável triângulo amoroso. Outra surpresa viria para conturbar ainda mais sua vida, estava grávida do amante e grande amor,  planejavam uma vida juntos. Dói ver a cena da entrega obrigada da filha, recém-nascida, para a família do pai cuidar.

Após sua morte, muitos anos depois, o duque se casou com a amante que se tornou também duquesa. Tudo baseado em fatos reais. E assim, vez ou outra, vejo que a crônica se repete…

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas