Clichês (e como usá-los) [Daniel Russell Ribas]

Posted on 25/07/2016

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Daniel Russell Ribas*

I’m reaching out for something/ Touching nothing’s all I ever do (“ TheBallroom blitz” – The Sweet)

 

Touching nothing’s all I ever do

Existe clichê maior do que cronista que escreve sobre sua falta de assunto? Ou discorrer sobre seus insucessos sob uma ótica sarcástica /romântica/ com-ligeiro-toque-de-esperança-ao-fim? Ou comentar a respeito dos desencontros da vida? Provavelmente, mas, como impostos, mortes e amores frustrados, é inevitável esbarrar nisso.

Bebo uma cerveja contemplando o nada. E o nada me responde. Enquanto tiro a poeira do armário de lugares comuns, converso com um amigo sobre o ofício de escrever. “Meu, pensa em alguma coisa e escreve.” Conselho útil. Mas sobre o quê? “Sobre não escrever”. Brindo com outra pérola de botequim: “Fracassei, mas não deixei o fracasso subir à cabeça.”

Esse amigo decide me ajudar e escrever um texto. Em meio às latas de cerveja, pega um pedaço de papel da mesa e rabisca umas linhas. Por um momento, me preocupo se ele terá êxito e acrescentará mais esse tapa na cara no meu placar da noite. Logo, ele desiste, joga o papel para longe com raiva e declara que “Não consegue” com a fúria. “Escrever para poucos: aqueles que têm tempo.”, e sorrio. Satisfeito, retomamos o papo e cerveja-relacionamentos, cerveja-política, cerveja-filosofias de vida, etc, não necessariamente nesta ordem. Concordamos que somos moldados por nossas relações que não deram certo. Que, de alguma forma, esses namoros de términos variados criaram uma visão automaticamente aplicada para futuras parcerias. “Por que isso?” Talvez estejamos tentando nos proteger, ele afirmou. Eu respondi que é uma maneira de nosso eu inconsciente retomar aquela gostosa inocência do primeiro amor. Mais do que proteção, queremos acreditar que a sensação de estar apaixonado pela primeira vez possa nos dominar. Aceitamos o pacote todo, incluindo a decepção, pois, acima de tudo, queremos crer que não possuímos um coração de pedra. “Meu, que lindo, por isso que tu é poeta!” e rimos alto como estivéssemos mais bêbados do que realmente estávamos. “Tudo que é preciso é amor!” E pedimos mais uma garrafa. Brindo a inspiração, mas ouço uma mulher que estava fora de área de cobertura. Olho para trás, pois sei que ela pode surgir a qualquer momento. Ou uma jamanta.

Escrever é cheio de desencontros como a vida, comento. “Profundo, meu.” Meu amigo vai embora amanhã. Veio de Santa Catarina visitar, não nos víamos há tempo. Como muitos, seguiu com sua vida. É impressionante como convivemos intensamente com alguém por um período, achamos que nos conhecemos por toda a existência e, de súbito, isto acaba. Mesmo que a amizade permanece, não é o mesmo. Nunca seremos. Nossas vidas mudaram a marcha. Na mesa, conversamos e rimos, mas me preocupo se estamos nos esforçando para tornar a camaradagem natural. É óbvio que o amor continua, mas buscamos tanto reviver por algumas horas aqueles dias que se transfiguraram em memória que temo forçar a barra. Não é como antes. É divertido, a interação permanece afiada. Entretanto, os silêncios são maiores e os temas são gerais, pois as aventuras em comum pertencem às lembranças, vastamente acessadas. “Meu, esse teu desencontro com a escrita tem meio disso. Deixa rolar. Você é muito soturno, meu. Vai, envia uma página em branco e chama de experimental.” “Não, chamarei de “Crônica soturna”. O troço é tão sombrio que o autor não teve coragem de divulgar e envio uma página em branco…” “Com a palavra “Socorro” em letras de revista.”, ele emenda, como fazíamos. E rimos como nos velhos tempos. Porque o tempo nunca passa entre amigos. Ainda mais no boteco de domingo madrugeira.

Amizades, paixões, escrita. Todos meus clichês favoritos, a serem usados sem parcimônia. Como se usa os clichês, o leitor pergunta. Você prometeu no título. Ah, isto não vou contar. É a parte soturna da crônica, junto com morte, impostos e amores frustrados

Um brinde!

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas