Sene-Sene-Senegal [Daniel Cariello]

Posted on 21/07/2016

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Daniel Cariello*

Não existe nada no mundo como o aeroporto de Dakar, a capital do Senegal. Pelo menos no meu mundo nunca existiu nada semelhante. A coisa é tão confusa aos olhos de um estrangeiro – mas ao mesmo tempo funciona tão bem dentro desse caos – que se tentarem organizar, acredito, entra em colapso instantâneo. É como uma música do Frank Zappa. Ou um filme do Fellini. Ou um X-Tudo de beira de estrada, com muito X e muito tudo. Não tente compreender sua lógica. Apenas aceite a existência.

A introdução dessa nova realidade é a sala de desembarque. Existe esteira para as bagagens, claro, mas ela está ali só porque deve ser obrigatória a presença de uma nos aeroportos. Sua função prática é discutível. Algumas poucas malas, mais afortunadas, circulam por ela. Mas a grande maioria fica mesmo espalhada pelo chão, criando uma variante da corrida com barreiras. A diferença é que o cara saltando ao seu lado não está se exercitando espontaneamente. A única coisa que ele quer é ter o direito de alcançar suas valises antes que elas entrem num universo paralelo e desapareçam para todo o sempre. Um fato que deve ser comum no lugar, levando em conta a quantidade de sacos, sacolas e pacotes encostados pelos cantos, umas 20 vezes maior do que o número de pessoas presentes. Mas no fim das contas, e para o meu espanto, a impressão que eu tive é que todo mundo conseguiu recuperar seus pertences. Eu incluso.

Ao sair da sala, dezenas de pessoas vieram ao mesmo tempo me oferecer os mais diversos serviços. E, se existe um povo insistente, é o senegalês. O maior erro que se pode cometer em Dakar, e isso eu só fui descobrir mais tarde, é dar corda para quem queira te vender qualquer coisa no aeroporto, na rua ou onde quer que seja.

– Táxi?
– Não, obrigado.
– Tem certeza?
– Tenho.
– Mas alguém vem te buscar?
– Vem.
– Quem é?
– Como?
– Quem vem te buscar?
– Demba.
– Eu não conheço.
– Eu também não.
– E como você sabe que ele vem?
– Eu sei que vem.
– Tem o número dele?
– Tenho.
– Acho melhor você ligar.
– Não precisa.
– Vai que ele não vem.
– Ele vem.
– Liga.
– Não quero.
– Eu tenho telefone.
– Se eu precisar, aviso.
– Mas vai ficar tarde.
– Não tem problema.
– Tô aqui do seu lado.
– Não se incomode. Pode ir pra lá.
– Me chama se precisar?
– Chamo sim.
– Não vai ligar agora mesmo não, né?
– Não, obrigado.
– Tá. Tô ali.
– Merci.
– Ali.
– Já sei.
– Naquele canto.
– Merci…

Tudo isso aconteceu mesmo antes que eu saísse da área reservada. É que no aeroporto de Dakar, ao deixar o desembarque, já na rua, existe uma barreira. Dentro, só quem tinha acabado de chegar de viagem e alguns outros que, não sei como, também foram parar ali. Fora, um mar de gente aguardando. Alguns ostentavam papéis com nomes de pessoas que chegavam. Outros ofereciam produtos e serviços diversos para os “toubabs”, como eles chamam os brancos. Eu fiquei dentro, claro. Mas era só bobear que algum desses que furou o bloqueio chegava perto.

– Táxi?
– Não.
– Ligação?
– Não.

Enquanto isso, do lado de fora da barreira, uma mulher discutia com um guarda, ao mesmo tempo que segurava um papel com o nome de alguém. Ele saiu e voltou com um companheiro, maior. A mulher, pequena, enervou-se ainda mais e passou a berrar em dobro. No meio de toda a gritaria, um ambulante oferecia milho para os guardas. Outro passava do lado balançando uns pacotes de cuecas, também à venda. Depois de alguns minutos, e vendo que não ganhariam a discussão, os dois deram as costas e saíram de perto. Nisso, o sujeito que tinha puxado assunto comigo volta mais uma vez.

– Seu amigo apareceu?
– Como?
– O Demba apareceu?
– Ainda não.
– Eu tenho um táxi, viu?
– Sim, já sei.
– Não quer mesmo?
– Não, não, obrigado.
– E ligar, quer?
– Não.
– Ó, tô ali.
– D’accord. Merci.

Mas ainda faltava o grand finale. O toque surreal derradeiro. O boi com asas. E ele não demorou a chegar. De repente, fez-se um silêncio. Lentamente, um grupo de freiras saiu da sala de desembarque, em fila indiana, atravessou a barreira e cruzou a multidão, que de forma espontânea abriu para elas passarem. Assim que sumiram, o caos voltou instantaneamente. Uma cena completamente deslocada, e por isso mesmo totalmente integrada com aquilo tudo. Voltei a mim quando senti um cutucão no ombro.

– Só pra te lembrar que eu tô ali no canto, viu?

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas