Juca [Guilherme Tauil]

Posted on 19/07/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Soube com uma semana de atraso que o coração do Joaquim tinha parado de funcionar. Estava há um tempo ensaiando um e-mail para ele. Preciso escrever para o Joaquim, está na hora de retomar o contato com o Joaquim, acho que amanhã vou procurar o Joaquim. Mais uma conversa que ficará, para sempre, na caixa de coisas inacabadas.

Quando fiz dezoito anos, me dei de presente o Grande Sertão: Veredas. O plano era ler quando tivesse trinta, idade em que, calculava, já saberia uma coisa ou outra sobre a vida. Sabia que precisava estar pronto para fazer a travessia do romance. Mas, logo no primeiro ano da faculdade, acabei matriculado num curso de estudos literários com o Joaquim, que apontou pro sertão de Guimarães Rosa e disse vai, meu filho.

Pisar o chão do Grande Sertão com o chinelo plebeu de calouro foi uma das melhores coisas que poderiam me acontecer. O correr da vida embrulha tudo. Joaquim não tinha muita paciência para quem se demorava na travessia. Aliás, era difícil uma aula sem que ele sugerisse o abandono do curso. Às vezes, implorava para que trocássemos de carreira. Ficava sufocado com tanta gente na sala. Mas pegava na mão de quem demonstrava interesse verdadeiro, mesmo sem nunca apontar atalho.

Aos poucos fui ganhando a confiança de Joaquim, que passou a ser Juca. Para se esquivar dos alunos que o esperavam na porta, me usava como escudo pelos corredores. Furava os chatos me exibindo, como quem se mostra ocupado, atendendo. O que nem sempre evitava que um aluno poeta, essa entidade onipresente nos cursos de letras, o interpelasse com um punhado de folhas. Juca queria morrer quando alguém pedia que desse uma lida em seus poemas. Pedia encarecidamente que não fizessem isso jamais: poema de aluno de letras é muito cafona. Desencorajados, os poetas riam de desespero. Era como se ele não concebesse alguém querer escrever versos enquanto estuda Drummond.

Joaquim foi o primeiro professor para quem confidenciei querer pesquisar Rubem Braga, enquanto ele acendia o cigarro dentro da sala de aula, em frente à placa que proibia fumar. Começou a falar muito sobre a crônica, sobre o Rio de Janeiro dos anos cinquenta, e quando deu de falar sobre o caráter memorialístico do gênero, saquei que estava era ganhando tempo para dispersar o contingente de chatos, sempre à espera na porta, com seus poemas e grandes certezas sobre tudo. Só quando todos desistiam é que Juca ajeitava o boné velho e começava a falar de verdade, detrás daqueles óculos muito grossos.

Apesar de tudo, nunca consegui fazer com que participasse dos eventos que organizei na faculdade. Não gostava de falar pra multidão. Achava cafona. Desconversava, arrumando seus anéis. Mas topava todo cigarrinho debaixo da amoreira, onde religiosamente se atrasava para começar as aulas. Foi também lá, naqueles quinze minutos de sempre, que aprendi a sentir falta do Joaquim: cada um que se vai, foge com um pouco da gente. Tudo é para depois…

Sempre achei que Juca fosse morrer de desgosto. Que fosse se jogar no beco de Manuel Bandeira. Ou se acabar numa praça no bairro da Glória. Talvez beber veneno em Americana, sua cidade, enquanto citava, batendo no peito, a exortação final de Ulisses: aguenta, coração, que já sofreste bem pior. Mas Joaquim morreu na poltrona, sozinho, assistindo televisão. Ele só ligava a tevê à noite. Ê, Juca.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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