Melhor assim? [Cássio Zanatta]

Posted on 18/07/2016

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Cássio Zanatta*

Melhor que sábado, é mar. Melhor que mar, horizonte. Que horizonte, é ela perto. Melhor que ela, não tem.

Melhor que chegada, é sair sem rumo. Que ter rumo, é ter viagem. Melhor que a viagem, é esperar por ela. Uma janela, que duas tevês. Ou um sorriso acenar de outra janela.

Melhor que sandália, é feriado. Que feriado, é descalço. Melhor que descalço, é pisar leve. Melhor que leve, é torresmo. Que torresmo, pouca coisa nessa vida. Melhor que vida, sonho. Que nem parece que é sonho quando a gente acorda.

Melhor maritaca que despertador. Despertador do que não ter por que acordar. Acordar, tomar café, voltar para a cama e dormir de babar, mais vinte e um minutos. Em travesseiro de paina, melhor que sintético.

Melhor que triste, é riso. O riso claro, desaforado, que chega a ofender o triste. Melhor no frio é enrosco de perna. Melhor que coxinha, fico devendo. Que bola, ser menino. Que dívida, perdão.

Melhor que a primeira paixão, é que seja correspondida. Que o tapa, é a coragem da tentativa. Que o orgulho, a entrega. Que gozo, é junto. Que gravação, é ao vivo. Que Tom, é Jobim.

Melhor que poste, é árvore. Que árvore, sombra. Que sombra, é  deitar debaixo e pensar na vida. Ou melhor, nem na vida pensar.

Melhor que bar, é amigo. A confidência, que o pileque; ele confiando em contar coisas que não contaria a ninguém. Melhor daí é ouvir, nada dizer, dar só o ombro, jamais conselho. Melhor amigo pouco diz.

“Mais bom” é feio dizer, mas tem negócio aí que, de tão bom, é mais bom que melhor. Mais as mãos dadas, que a conversa. O silêncio, que a palavra maldosa. Perfume, que ausência. O encontro sem querer, que torpedo no celular.

Será que o melhor é mesmo o melhor?

Melhor seria um cachecol. Arrancar esse dente. Não comprar carro algum. Mastigar ao menos quarenta vezes antes de engolir. Não arrancar a casca da ferida. Não ficar xarope de tanto dinheiro. Encontrar um conhecido e lembrar seu nome. Esperar com paciência a onda certa para o jacaré. Reler José Cândido de Carvalho. Meter os pés na poça. Ignorar o espelho. Ignorar o boato. Ser meio burro e inocente, feito uma rosa.

Quem sabe, então, o melhor deixaria de ser tão pretensioso.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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