Terras paranoicas [Mariana Ianelli]

Posted on 16/07/2016

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Mariana Ianelli*

Foi num dia 16 de julho, num campo de teste do Novo México, que detonaram a primeira bomba atômica fabricada pelos Estados Unidos. Duas outras seriam usadas, menos de um mês depois, na destruição de Hiroshima e Nagasaki. De onde vinham essas bombas? Do Laboratório Nacional de Los Alamos. Los Alamos. Um lugar de nome tão bonito para designar instalações e objetivos tão torpes. Lugar dos álamos radioativos, centro de fabricação de catástrofes históricas. Dizem que, cedo ou tarde, o tempo perdoa. Que o tempo faz esquecer nem que seja por cansaço, leniência, trégua. Mas as terras onde armas nucleares são produzidas ou detonadas tornam-se paranoicas, exatamente como dizia Elias Canetti a respeito dos que são incapazes de perdão. Por serem envenenadas nos seus genes, nas suas sementes, na sua essência, não esquecem tão cedo o que lhe fazem. Passadas três, quatro, cinco gerações, continuam a parir filhos aberrantes ou então se negam a parir mínima vida que seja. E que culpa, a dessas terras, se podiam dar seres perfeitos e delicados, fossem tratadas com delicadeza, que culpa, se, à serviço da guerra, dão só uns feios frutos de ressentimento? Não é que se vinguem num castigo secular, que estigmatizem inocentes, apenas respondem ao que nelas foi plantado, instilado, modificado, e respondem à altura de como foram e tem sido tratadas. É o que de repente faz lembrar essa data, 16 de julho. Uma espécie de marco simbólico paralelo ao da primeira bomba atômica no calendário de traumas da História. Marco da impossibilidade do perdão em certos casos. Um dia de tributo às terras tornadas paranoicas.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas