Bom pra cachorro [Madô Martins]

Posted on 15/07/2016

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Madô Martins*

Houve um tempo em que Copacabana chamou a atenção pelo número de cães que circulavam por suas ruas. Deve ter sido a mesma época – 2011 – em que Eduardo Dusek provocava, lançando o Rock da Cachorra cuja letra dizia “Troque seu cachorro por uma criança pobre”… Atualmente, segundo o IBGE, o Brasil possui 52 milhões de cães, a segunda população canina do mundo, mas a maioria deles mora no Paraná, onde 60% das residências têm um de estimação.

Aos poucos, minha cidade, no litoral de São Paulo, também foi se enchendo de cães, de todos os tipos e tamanhos. Em consequência, aqui é grande a quantidade de pet shops e clínicas veterinárias. Surgiu a lei que obriga os donos a acompanhar seus mascotes com sacos plásticos para recolher as fezes das calçadas e outra, que proíbe o acesso de cachorros às praias, porque podem contaminar os humanos com a larva migrans cutânea, popularmente conhecida como bicho geográfico. Este parasita é eliminado pelo animal e se espalha na areia, podendo penetrar no organismo humano através de feridas ou cortes. Move-se sob a pele e causa coceira e inchaço por alguns dias, necessitando tratamento.

Tudo isso acontece, desde que resolvemos civilizar os ditos animais irracionais. Alguns vestem seus cães como gente, incluindo óculos escuros, e montam um guarda-roupa temático (Carnaval, festas juninas, Natal), com fantasias que muita criança jamais provou. E muitos, muitos mesmo, se empenham em participar de passeatas caninas pela avenida da orla que acontecem todos os anos, pintando unhas e pelos dos pets, enfeitando-os com capas de heróis, saiotes, gravatas…

Gosto de cães, mas em seu estado natural. Sei reconhecer a maioria das raças e penso que são felizes, quando respeitamos seu jeito próprio de ser, acelerados ou calmos, cordiais ou reservados, prestativos ou indiferentes. De guarda ou companhia, são animais admiráveis que demonstram afeto e fidelidade, na quase totalidade da convivência. Latem, andam na chuva, protegem o dono e a propriedade e precisam de liberdade.

Recentemente, a humanização dos cachorros atingiu novo patamar: está virando moda o carrinho de cão, muito parecido com os dos bebês. “Seu cachorro vai adorar”, diz a propaganda. Será?!

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas