Selfies e acidentes acontecem [Marco Antonio Martire]

Posted on 06/07/2016

6



(Imagem: Bendita Luz)

Marco Antonio Martire*

Um turista morreu ao cair de um penhasco quando fazia uma selfie na cidadela histórica de Machu Picchu. As circunstâncias do acidente não são uma novidade. Tem sido comum esse tipo de acidente, que acomete fotógrafos amadores por todo o mundo. O sujeito vê um precipício lindo, imagina as curtidas dos amigos na selfie espetacular e se pendura. A má conseqüência fica por conta de um previsível acaso: uma escorregada, um vento que bate e desequilibra. É o fim.

O tamanho da audácia costuma ser proporcional à atenção que o acidentado dá à rede. Nos últimos meses venho tentando me desconectar da grande rede um pouco, principalmente do Facebook, palco aberto de nosso tempo para todos que têm algo a dizer. Não deixa de ser um massacre. Procuro encontrar pela vida fora uma alternativa, o que não é difícil, pois o ofício de cronista me leva a procurar assunto onde for.

Outro dia quase morri em circunstância semelhante à de nosso azarado turista de Machu Picchu. Cheguei em casa depois de uma cerveja entre amigos e abri a janela no escuro de meu quarto. Fui à cozinha, comi umas folhas pra dizer que estou de dieta. Alguns minutos depois retornei ao quarto e liguei o computador para tirar essa onda. Enquanto esperava em pé, o que fiz? Estiquei o braço em busca do vidro da janela como apoio. Por muito pouco não parei lá embaixo, sobre uma grade daquelas de várias lanças apontadas para cima.

Nem tento imaginar o que diriam desse meu acidente, faz mal para a autoestima. Mas gosto de pensar, às vezes, que aconteceu comigo como acontece com os gatinhos pelas ruas, penso que lá se foi uma de minhas sete vidas. Em uma realidade paralela eu parti, nesta realidade permaneço. Continuo a perturbar o sossego dos vivos feito eu.

Todos têm uma história de como estiveram perto do fim um dia. Outra noite conversava sobre isso com fulano: o amigo escorregou de uma escada sem corrimão, e foi rolando, diz que salvo graças às aulas de judô. Vi na tevê um paraquedista sênior descrever o que houve com ele quando o paraquedas não abriu. O cara é agnóstico, mas a primeira coisa que fez ao constatar sua sorte foi pedir ajuda a Deus. Parece que a súplica funcionou, o experiente paraquedista despencou sobre árvores e arbustos, só quebrou um osso. Está no YouTube.

É claro que há uma diferença entre sofrer acidente por acaso, de um lado, e procurá-lo feito um tolo, de outro. Mas existe uma galera que vive dessa tolice e adeptos de esportes radicais são exemplo do que digo. Não conhecem a nossa crise, o número de praticantes só aumenta, assista aos profissionais na rede e nos canais a cabo. Fazer selfies arriscadas pode se converter, portanto, em uma novíssima e valorizada modalidade radical, tem quem anda exercendo a sua dose de loucura dessa maneira. Não existe gente querendo ir viver em Marte?

Quando inventarem a passagem de volta eu até topo. Tirar uma selfie em Marte é radical e vai custar uma nota! Acho que para tirar essa onda eu teria que trabalhar durante toda uma vida. Melhor ficar atento ao piso do banheiro.

________

Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

Anúncios
Posted in: Crônicas