A mulher maquiada [Guilherme Tauil]

Posted on 05/07/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Com as mãos em formato de taça, ela leva a água até o ros­to. Antes de começar a se maquiar, limpa toda a impureza da pele com movimentos circulares. Ligeiros, os dedos vão deixando um rastro de creme pela cara, que ela espalha de uma ponta a outra. Com a destreza das experientes, prepa­ra o caminho para começar sua arte.

Do pescoço à testa, pulveriza com pó os meandros do rosto. Pela luz, sabe o que pede cada centímetro de pele. Há detalhes que precisam ser ocultados; outros, realçados. An­tes mesmo de finalizar a face, está testando poses, flertando com o espelho.

Depois, empenha-se em dar aos olhos o destaque neces­sário. Pelo contraste da cor preta com o branco natural, sabe muito bem o efeito fatídico que sua mirada pode provocar. Começa esfumando a sombra negra pelas pálpebras, fa­zendo com que o único ponto possível para alguém pousar a vista seja sua pupila, ainda não dilatada. Rodeada pelos grossos traços do delineador, a presa é incapaz de escapar. Para certificar-se de que não haverá fuga, ela arma os cílios ardilosos com rímel, como quem ajeita uma armadilha.

Levantando o queixo suavemente, encara seu reflexo.Começa uma elegante e rigorosa inspeção, da qual não escapará nenhum ponto falho, num lento movimento cir­cular com a cabeça. Vira a cara para a esquerda, depois para a direita, o queixo sempre altivo, como quem jamais perde a pose. Não cometeu falhas nem excessos e aprova o próprio rosto, contraindo levemente os olhos e a boca. Disfarça o sorriso de satisfação, porque sorrir numa hora dessas significaria desmontar-se por completo.

Ela está linda, mas sabe que ainda falta algo. Sem tirar os olhos de si, abre uma gaveta e procura, com a ponta dos dedos, o toque final. Puxa seu batom vermelho, russian red, e o deixa aberto na penteadeira. É preciso estar pronta para assumir a mulher fatal, e, enquanto corrige a cor de seus lá­bios, lembra-se dos tempos de menina, a mãe dizendo que vermelho não podia, era coisa de gente grande. Tinha que se conter com o brilho melado que cheirava a fruta, mesmo já sabendo que não é esse o gosto que se busca numa boca.

Com um lápis, margeia os beiços como se começasse a pintar um quadro. Há em cada movimento um toque de mistério. Depois de delineada a tela, preenche tudo com a bala do batom, muito mais vermelho que o da sua memó­ria, avivando cada sulco com o pigmento. Sela a pintura com um estalo quase inaudível dos lábios, permitindo-se a delicadeza de balançar os ombros, simulando a dança com a qual pretende sagrar-se mais tarde.

É seu pequeno ritual infalível para pôr à prova a har­monia geral do rosto. Suspira de leve e se levanta, expe­rimentando ângulos, treinando frases convidativas. Está pronta para qualquer coisa: conquistar um amor, espionar pela revolução, fazer valer a noite, ser a próxima presiden­ta do país. Mas já está tarde e a dama, ainda encarando o espelho, é tomada pelo sobreaviso incontrolável de um bocejo que se aproxima.

Não há mais volta. Lentamente, levanta a cabeça em di­reção à luz e deixa seu corpo se preparar para sorver o ar: o pescoço estirado à mostra revela a pele flácida. Um olho se fecha pela metade e o outro pisca sem trégua, como se estivesse com mau contato. A boca excessivamente aber­ta parece determinada a abocanhar um pernil inteiro. Os dentes escancarados reforçam o apelo da careta, sugerindo alguma semelhança monstruosa. O barulho da baforada que embaça o espelho é tão retumbante que a femme fatale se sente mais leve. Passados os cinco segundos de selvage­ria, volta a ser a mulher mais bonita do mundo.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas