A lesma [Cássio Zanatta]

Posted on 04/07/2016

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Cássio Zanatta*

Deitado na rede, acompanho a lesma se arrastando na parede da varanda, deixando aquele rastro viscoso que…

Pronto. Na primeira linha, perdi a audiência dos entusiastas do trabalho e do público feminino. Não convidem para o mesmo parágrafo redes e workaholics, lesmas e mulheres.

Meninos, víamos graça em catar lesmas para assustar as meninas e fazê-las correr, enojadas. Éramos herois, porque confesso que escondíamos nossa repulsa, elas tinham total razão no desgosto, era preciso reunir toda a valentia para nos mostrar fortes.

Não por maldade. Era pura tontice, meninos são toscos. Maldade foi quando fizemos nosso primo mais novo comer pimenta vermelha do pé, dizendo que era minipimentão. O pobre ficou até com a boca inchada. A vingança veio a galope: as mães souberam e proibiram a gente de andar a cavalo por dias. Então, não é verdade que a vingança vem a galope? Vejam que há muita confusão quando se é menino.

Houve a paçoca socada no pilão. A gente se revezava no esforço, o barulho seco, bom, mas melhor era o cheiro que depois saía do fornoa lenha e preenchia a casa. Já para mexer as goiabadas no tacho, não servíamos, era preciso muque de adulto.

Eu daria tudo para ouvir hoje nossas conversas daquele tempo. Conversas proibidas às meninas. A gente se escondia delas, espremidos numa caverna que as grandes pedras do pasto formavam. Fumávamos os cigarros mais ordinários, chupávamos macaúvas, prestando atenção ao que diziam os meninos maiores. Falavam de coisas sérias – como beijar, como era namorar, um espanto. Os mais novos duvidavam de que aquilo pudesse ser bom. E quem passasse lá embaixo se assustava com a fumaceira saindo de dentro das pedras. Seria queimada? Seria feitiço, santíssima?

Quando eu era menino, as meninas choravam demais, demais. Isso mudou, não? Não ouço meu filho falar nisso – ao contrário, ele até tem amigas meninas, coisa que naquele tempo era proibido, beirava a traição. Quem diria que pouco tempo depois estaríamos encantados e mendigando sua atenção.

E de onde vêm essas lembranças, que chegam nesse passo lento, foi o desandar da lesma que as ressuscitou? Só há uma conclusão possível: a lesma não entende a lógica do jato.

Saio da rede para fazer café. Dizem que café ajuda a gente a despertar. Quem sabe eu acordo dos devaneios? Ô, café ruim. Trem-bala é fichinha, comparado à velocidade da vida da gente. Às vezes dá inveja da lesma.

Falar nisso: e a bichinha, cronista distraído, que fim levou? Fica divagando e deixa a turma curiosa. Nossa, é mesmo. Ah, mas lesma é bicho vagaroso, ficou lá, no primeiro parágrafo, quase no mesmo lugar.

No que fez muito bem.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas