Discernimento e outras carências [Raul Drewnick]

Posted on 03/07/2016

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Raul Drewnick*

Discernimento é o tipo de coisa que poderíamos ter se soubéssemos o que é.

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Pelo andar da carruagem, devo estar em Estocolmo por volta de 2059, se ainda houver Suécia e Prêmio Nobel.

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A ideia que eu tenho de um lar é um gato cochilando no sofá. Todo o restante pode ser como for.

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Gatos deveriam ser trazidos no bico por cegonhas e lançados de nuvens sobre as casas, em manhãs de primavera.

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Deveria haver uma palavra mais forte e intensa para exprimir os tormentos pelos quais passa a alma desde que conhece o amor, ainda que o conheça, como costumeiramente ocorre, numa dessas manhãs gloriosas e douradas nas quais somente anos depois alguém, rememorando-a, pode ver apenas mais um dos embustes do demônio para arrastar um homem ao seu reino de trevas e de infortúnios.

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Escrever. Há de ter um homem, entrando já na última trilha do seu caminho, coragem para dizer, como se estivesse comentando ser padeiro ou pedreiro, que é isso que ele faz desde os quinze anos, com a mais cega, aguda e estúpida obstinação?

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A palavra amor deveria ser dita sempre por nós como se estivéssemos murmurando uma cantiga de ninar para uma rosa assustada, numa noite sacudida por trovões.

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O amor é como os transatlânticos que vemos de longe, iluminados, lançando ao céu os jubilosos sons da orquestra. De manhã, chegam até nós, na praia, restos da festa: bitucas, taças partidas das quais o mar bebeu o batom, guardanapos, uma calcinha envergonhada, um preservativo que intrigará um menino e fará corar sua mãe.

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Obcecado por sexo, é com os botões da braguilha que conversa e a eles é que faz confidências.

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O amor não precisaria ser simples. Bastaria que não fosse tão complicado.

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Acredito que, se bem selecionados, dez ou doze romances podem dar conta de tudo que realmente importa na trajetória do homem no planeta.

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Envergonha-se do tempo em que se exibiu como adepto do amor e, depois, considerando-o uma crença menor, o renegou. Sabe hoje que o indigno era ele – e sempre será.

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Quando digo que a literatura é o que me resta, não estou glorificando o escritor que não sou. Estou lastimando o homem que poderia ter sido.

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Tenho a impressão de que, se um dia me encontrar com Mario Quintana, seremos dois meninos assobiando uma música numa rua comprida e ensolarada.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas