Julho [Madô Martins]

Posted on 01/07/2016

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Madô Martins*

Porque é julho, arrumo as malas, prazer ambíguo diante da possibilidade de partir e da preocupação de deixar algo necessário para trás. Herdei o sangue cigano dos ancestrais, por isso, road is my middle name, como diz o antigo blues.

Uma semana antes, já estou com borboletas no peito, alegre e excitada. Chega o momento de arejar as malas, o que torna um pouco mais real o plano da viagem. Aí vem a tarefa preocupante: o que levar? Ainda não adquiri a praticidade masculina de escolher poucas peças de vestir e carregar uma bagagem modesta, quase uma valise.

Então, adotei método próprio: tiro dos armários tudo o que gostaria de transportar comigo e repito uma, duas vezes o processo de eliminação do supérfluo. Termino a seleção com certo sentimento de lástima e o medo de ter excluído justamente a roupa que me fará falta lá longe.

Já houve época em que fazia listas, o que facilitava bastante o momento da escolha. Agora, confesso que sinto preguiça e me falta tempo para isso. Assim, arrisco preencher a mala baseada nas experiências anteriores e na intuição.

Sei que não há espaço para exageros, como o que cometi quando fui para a Europa sozinha, com três malas imensas. Ia para países de climas diferentes, então me perdi nas opções de vestes para frio e calor, mais sapatos, complementos, cosméticos, remédios… Prometi intimamente que jamais repetiria o equívoco. Nunca mais tentarei carregar três malas pesadas como aconteceu no aeroporto de Madri, onde escalei uma rampa a pé, pensando em Sísifo…

Desta vez, a estadia será breve. Vou seguir a sugestão das revistas de turismo e de moda, que sempre recomendam roupas que combinem entre si, para tornar a mala mais leve. Mas sinto muito, muito frio, e será impossível eliminar os casacos. E meias grossas. E botas. E ainda, cachecóis, luvas, capa de gabardine para os dias de chuva…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas