Do térreo ao sétimo (céu) [Daniel Cariello]

Posted on 30/06/2016

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Daniel Cariello*

– Bom dia.
– Bom dia.
– Qual andar?
– Sétimo.
– Eu aperto. Cheia de compra aí.
– Brigada.
– Nada.
– …
– …
– Calor, né?
– Demais. E o verão acabou tem tempo.
– Menos aqui.
– Menos.
– E o pior é que…
– Chegou. Sétimo.
– Deixa que seguro a porta.
– Brigada.
– Nada
**

– Bom dia.
– Bom dia.
– Qual é mesmo?
– O quê?
– Andar.
– Ah, sétimo.
– Eu aperto. A mão tá cheia de coisa.
– Brigada.
– Nada.
– …a gente se conhece?
– Daqui.
– Do prédio?
– Elevador. Teve aquele dia que pegamos…
– Chegou. Sétimo.
– Deixa que seguro a porta.
– Brigada.
– Nada.
**

– Oi! Sétimo?
– É.
– Eu aperto.
– Aperta?
– O botão. Tá aí com sacola e bolsa.
– Claro. Brigada.
– Nada.
– Foi aqui, né?
– O quê?
– Que a gente se viu antes.
– Foi. Terceira vez, já.
– E nunca dá tempo de… Ai, chegou. Sétimo.
– Eu seguro.
– Segura?
– A porta.
– Ah, brigada, viu?
– Nada. Até a próxima.
– Té.
**

– Ei! Sétimo, né?
– Continuo lá. E você, mora em qual?
– Oitavo, faz tempo.
– Falando em tempo, a temperatura caiu, né?
– Caiu. Tá dezenove.
– Dezenove?
– É.
– Tudo isso?
– Acha muito?
– Acho. Quer dizer, acho pouco. Bom pra ficar em casa.
– Debaixo do edredom.
– Comendo pipoca.
– Tomando chocolate quente.
– Vendo série.
– Só que sozinho não tem graça.
– Tem não…
– Vixe! A gente ficou na conversa e nem marcou o andar.
– É mesmo!
– Sétimo. Deixa que eu aperto.
– E depois segura?
– Seguro.
– Jura?
– Claro.
– No meu apê ou no seu?

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas