Quarteto da rua lateral [Elyandria Silva]

Posted on 28/06/2016

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Elyandria Silva*

Uma rua de ilusões doloridas, de loucuras, de devaneios, de submissões humanamente impensáveis para alguns. É noite, não tão cedo que os vestígios do dia ainda não desfilem pelo céu, nem tão tarde a ponto dos olhos ameaçarem fechar a qualquer momento para entrar no mundo dos sonhos. Os círculos avermelhados se cruzam, intermitentemente, num emaranhado de luzes à medida que os carros avançam, param, seguem novamente, aceleram velozmente. O sinal fecha, abre, impões as chegadas e partidas. À noite somos todos iguais pelas esquinas e avenidas da cidade, motoristas sérios, com trajetos certos ou incertos, com tarefas a cumprir.

A sisudez ao volante se perde em pensamentos encaixados entre si, acerca de tudo, e de nada, ao mesmo tempo. A velocidade das ideias é interrompida pela seta do sinal anunciando a entrada para a esquerda enquanto a Epitácio Pessoa, em Jaraguá do Sul,  vai ficando para trás. Eram quatro, estavam do lado direito, ao longo da calçada, sequencialmente, separadas pelo espaço invisível e pelo silêncio que abriga o sexo barato de uma rua lateral. Não sei dizer a idade delas, deles, homens-mulheres, mulheres-homens, corpos sem sexo, sem identidade, sem voz, pseudônimos criados para agradar a quem compra os serviços da carne.

Sempre passo por ali durante o dia. Naquela noite, entrei na rua acidentalmente, deveria ter sido uma antes, ou depois, mais à frente, não sei, já faz um tempo. Espantada com o erro, desvio o olhar em segundos. Sou uma esperança de carro branco, na escassez sombria da noite de trabalho, para o quarteto. Como seres mitológicos as prostitutas pulam para o meio de rua, avançam para cima do carro e se jogam contra o vidro com suas maquiagens inacreditáveis e seus corpetes colados. Batem no vidro e rolam no capô. O coração dispara. Apavorada, acelero tentando fugir, como num filme de terror! Engato a segunda marcha e sigo normalmente, foi só minha imaginação e o quarteto permanece parado fazendo caras e bocas.

Uma delas estava de costas. Cabelos pretos e longos desciam pelas costas, parecia alta, mesmo que tirasse o salto plataforma. O vestido de lycra – daqueles que colam e se transformam em pele tendo quem pergunte como ele foi vestido e encaixado no corpo – cobria só a metade da bunda. A outra metade ficava de fora, ao relento na friagem, como diria algum caboclo provinciano. Modelo curioso, pensei.

Nádegas brancas e avantajadas, pela metade, como cardápio de uma existência fatigada e surreal para quem ainda se assusta com o submundo do sexo pago.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas