O chamado de Londres [Daniel Russell Ribas]

Posted on 27/06/2016

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Daniel Russell Ribas*

I’m wandering round and round here nowhere to go/ While my eyes/ Go looking for flying saucers in the sky(“London, London” – Caetano Veloso)

Estamos longe dos tempos de anarquia no RU, isto com certeza… O Reino Unido optou por sair da União Europeia e a marcha mezzo conservadora, mezzo retrógrada global segue. Como as notícias dos jornais que embalam os podrões de peixe com batata frita, a rivalidade entre os cidadãos “de elite” e a população “do campo” é datada. As metrópoles inglesas desejam permanecer integradas em busca de integração econômica e cultural e manter um posicionamento global, os moradores do interior enxergam nesta troca a origem da queda dos mesmos valores, com a imigração eliminando costumes e empregos. Todos parecem concordar que há problemas com o país, mas acreditam em maneiras opostas para solucioná-los, como num jogo de cabo de guerra. É quase um esquete de Monty Python: absurdo e sem um punchline. Só que terrivelmente sem graça.

Mas, ao contrário da culinária e senso de humor locais, há algo nesta disputa que pode ser atribuído a muitas transições que ocorrem fora da ilha do bebê George. O mundo segue um processo de extreme makeover com sabor de reprise. Nos capítulos anteriores, Cuba e Estados Unidos se reconciliaram, a Argentina elegeu um liberal após anos de peronismo e o Brasil se encontra em meio a um processo de impeachment. São mudanças que apontam para o antigo, mas não inesperadas. Sempre há guinadas ideológicas após longos períodos de um mesmo governo. Podem não ser animadas para as batalhas na série “Game of Thrones”, mas surgem com o mesmo potencial de destruição ou renovação. A chama atemporal deste caldeirão é a crise econômica. O tempero, raiva e paranoia. Logo, os antagonismos vêm à superfície. E, como num reality show, parte torce o nariz, outra acompanha, mas, ao fundo, todos sabem o que irão assistir. Melhor ficar com os dragões.

Os antagonismos se transformaram em rivalidades e desembocaram em polaridades. O mais importante é defender uma trincheira a tentar ouvir o que o outro lado pode dizer. Esse é o erro que David Cameron e muitos cometem. Seja por acreditar em uma causa ou por achar que os outros não seriam insensatos para desperceberem o blefe. E, assim como aconteceu com ex-primeiro-ministro, é uma tática que pode explodir na sua cara. Foi o que houve no Brasil: alguém apostou que algo que não poderia ocorrer, mas adivinha?… Se o conservadorismo tem uma qualidade, está na sua paciência em esperar nas sombras. Através das divisões, os meios retrógrados se fortalecem de maneira mútua e garantem seu assento no lado da janelinha.

Enquanto refletia sobre Londres e flashbacks, lembrei que a sequência de “Independence day”, outro direto do túnel do tempo, está para estrear. Para quem não sabe uma premissa: alienígenas invadem a Terra, USA os mandam de volta para o espaço. Apesar do óbvio panfletarismo, gosto da noção de que, ao fim do filme, o planeta todo se une para se livrar de um inimigo comum (independentemente dos americanos liderarem o show). Em seguida, notei que outros blockbusters, como “Capitão América: Guerra Civil” e “Batman vs. Superman” seguiam uma nota similar: duas forças se estranhavam para, mais tarde, resolver as diferenças e combater o vilão de verdade. A ideia de trabalhar em conjunto e encontrar uma solução me parece mais produtiva do que adotar uma postura de Pilatos. Gostaria de saber o que os discos voadores acham disso. Talvez Fox Mulder estivesse certo, e a verdade está mesmo lá fora.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas