Da noite pro dia [Alexandre Brandão]

Posted on 26/06/2016

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

Enquanto ouço o “Viralatas de Córdoba”, de Ademir Assunção & Banda Fracasso da Raça, reparo num sujeito que passa bem na minha frente. Eu o conheço embora não saiba seu nome. Nunca trocamos palavras um com o outro. Até aí, coisa nenhuma, mas acontece que ele envelheceu da noite para o dia. Ontem, bem, não era um jovem, mas não caminhava nem nas franjas da velhice na qual se meteu na última manhã.

Algo o levou a esse estado. Pode ter sido um golpe baixo da vida, um sofrimento que o tomou por dentro, de forma silenciosa, como quem não quer nada. Doença? Não parece — pelo menos não uma doença física. Sua velhice precoce anda envolta em sete véus. Está ali, não se esconde, tampouco se mostra às claras.

É uma velhice filosofal.

Velhice filosofal? A que nível de cretinice cheguei. O cara acorda velho do nada, e eu nomeio filosóficas suas rugas. De certo pensando em uma velhice que sempre esteve ali, a ponto de explodir. Dia a dia, ambos negociavam, e ele conseguiu até recentemente mantê-la longe dos outros. Um dia, cansada do ostracismo, a velhice deu-lhe o golpe e saiu do armário.

Não, não pode ser assim. Essa velhice, exibindo-se com certa volúpia, é um calo provocado por arranhões e trombadas, nasceu de um soco — por dentro — no estômago. Efeito de enfrentamentos que minha vista, acostumada a contemplar sem mais um homem que de vez em quando cruzava meu caminho, não alcança.

Se não tenho qualquer espécie de intimidade com o envelhecido, nem mesmo aquela reduzida a uma troca de “oi”, tenho de ficar preso a especulações. Isso? Aquilo? Lembro-me de dona Rosa. Ela ficava à janela contemplando as pessoas que passavam defronte a sua casa e chutava o destino de cada uma delas: aquele ali está atrasado para o ônibus das quatro; aquele outro, sacola na mão, tem de passar no açougue e levar a carne a tempo do almoço. Assim, dona Rosa se distraía, sem nunca confirmar suas suspeitas. De meu lado, não me distraio, pois não foi um Zé Mané que passou aqui pela primeira e última vez. É praticamente um amigo, amigo de contato fortuito, não declarado, assim mesmo pessoa com quem me encontro com assiduidade, na esquina que nos juntou no mundo. E o amigo, caramba, o amigo ficou velho, velho.

Penso que ele me conhece também. Certa vez, eu e ele olhamos sem cerimônia, — de forma ostensiva, melhor dizendo —, uma moça que passou entre nós. Depois, quando ela se perdeu, eu e ele nos encaramos e rimos. Foi o máximo a que chegamos. É possível que tenha se esquecido de mim. Se não antes, agora que ficou velho. Que envelheceu e eu jamais saberei por quê — e, por não saber, eu também envelhecerei um tanto, assim, de uma vez.

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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Posted in: Crônicas