Curtindo o medo [Luís Giffoni]

Posted on 25/06/2016

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Luís Giffoni*

O recente tornado de Campinas me remeteu ao vento do sul do Chile e da Argentina. O vento patagônico sopra com tanta força – chega a duzentos quilômetros por hora, dizem – que derruba as pessoas, mesmo as que carregam mochilas às costas ou estejam a cavalo. Certa vez, minha mulher e eu tivemos que rastejar numa trilha até uma ravina para não sermos jogados num precipício. Uma amiga por pouco não foi arrancada do cavalo. Um francês de 18 anos teve traumatismo craniano. Voou igual passarinho, mas caiu igual gente.

O vento forte tem um lado bom. Após arrancar dos lagos colunas de água com cinquenta metros de altura, verdadeiras cachoeiras de vapor e arco-íris, carrega-as em redemoinho rumo às planícies ou encostas, despeja a água em forma de garoa, uma bênção para as plantas à míngua, mortas de sede. Eis uma demonstração prática da ambivalência dos efeitos: a mesma lambada, fatídica para muitos visitantes, provoca a chuvinha gélida que permite a sobrevivência de muitas espécies.

Numa tarde, por curtição, ou melhor, para degustar o medo, postei-me no corredor por onde circulam as piores rajadas de vento e água no lago Nordenskjöld, ao lado do Refúgio Los Cuernos, no Parque Nacional Torres del Paine, no Chile. Suportei, com os braços bem abertos, qual uma pipa, a sanha da primeira, da segunda, da terceira cortina líquida. Quase decolei três vezes, porém, completamente encharcado, consegui me reequilibrar. No quarto assalto, um tornado com urro de locomotiva nascido entre os paredões do maciço, fui levado feito saco de plástico vazio. Subi e caí. Acordei arranhado no meio dos matacões deixados pelas geleiras. Por pouco não quebrei a cabeça.

Aliás, quebrei, sim. Para me entender. A experiência me situou, pela enésima vez, frente à natureza: sou mesmo nanico. Todos somos. Ainda bem que a maioria das pessoas usa o juízo e infere a pequenez sem arriscar a pele. Outras pagam caro para aprender. Minhas dores pelo corpo que o digam.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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