Decisões cruciais [Rubem Penz]

Posted on 24/06/2016

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Rubem Penz*

– Silêncio, por favor! – pediu a matriarca durante o almoço de domingo. – Tenho uma revelação que pode alterar os rumos desta família.

Mas o neto caçula estava chorando e se contorcendo porque não suportava mais estar na cadeirinha; outra neta brigava com o irmão que havia tirado o celular da sua mão e queria ler a mensagem que ela recebera; a filha (mãe deles) ordenava repetidamente, porém sem convicção alguma, que o rapaz deixasse e menina em paz; um dos cunhados tentava vender uma ideia brilhante para o primogênito (o único com recursos financeiros disponíveis); o filho temporão, alienado de tudo, trocava beijos e carícias com a décima terceira namorada em menos de dois anos, e o afilhado da boa senhora, sempre solícito, perguntava se ela podia cortar para ele mais um pedaço de chester, que estava uma delícia.

– Silêncio, por favor! – pediu o professor assim que entrou na sala de aula. – Tenho uma dica que pode ajudar muita gente na prova da semana que vem.

Mas Eduardo, Celso e Francisco discutiam aos berros sobre o pênalti no jogo de domingo pelo Campeonato Brasileiro de Futebol; Helena confidenciava com Marta detalhes da vida de Sílvia (que sentia sua orelha esquentar embaixo dos headphones num volume ensurdecedor); Bernardo mostrava para o “Bagre Louco” o vídeo que fizera sobre surf nas praias de Santa Catarina; Cidinha e Antônio Carlos terminavam os termos do manifesto que fariam nas redes sociais sobre a situação do ensino no Brasil, e Lauro, sempre prestativo, interrompia o professor para perguntar se ele podia abonar as faltas da semana anterior – havia falecido a avó do vizinho do primo, muito achegada, sabe.

– Silêncio, por favor! – pediu o superintendente. – Tenho uma proposta que pode livrar a companhia do pedido de recuperação judicial.

Mas Celina, dedo em riste, deixava claro para Manoel sua posição sobre a obrigatoriedade ou não de algum tipo de dress code nos escalões de gerência e diretoria (já havia usado o termo “empoderamento” sete vezes em menos de um minuto); Sérgio, Luiz Carlos e Betina discutiam aos berros sobre o pênalti no jogo de domingo pelo Campeonato Brasileiro de Futebol; Heloisa perguntava pela décima vez se era com ou sem açúcar o café do Sr. Branco Mello, enquanto este falava ao telefone com a amante (ela fazendo alguma espécie de chantagem emocional que parecia surtir resultado); Lopes, alheio, atualizava seu perfil no Linked In, e Moacir, sempre disposto a contribuir, levantava uma questão paralela importantíssima: quem estaria disposto este ano a participar da comissão para a Festa de Natal?

Instantes decisivos em que nossos protagonistas desistiram de vez e foram curtir fotos de gatinhos em seus celulares, que ganhavam mais.

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Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro o Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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Posted in: Crônicas