Instagram [Marco Antonio Martire

Posted on 22/06/2016

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(Imagem: Bendita Luz)

Marco Antonio Martire* 

— Amor, quero comprar um celular novo.

— Mas já? Compramos um pra você ano passado.

— Eu sei, só que lançaram aquele modelo incrível.

— Incrível como? Fabrica dinheiro?

— Tem uma câmera muito boa.

— Pra quê uma câmera melhor?

— Você sabe que eu adoro usar o instagram.

— Não estou dizendo pra deixar de usar o instagram, mas…

— Como vou usar o instagram se as fotos ficam uma porcaria?

— Amor, não exagera.

— Não é exagero, todo mundo esta usando essa câmera.

— Todo mundo quem?

— Não importa.

— Importa sim, quero saber quem.

— Não vou dizer.

— Você sabe que nosso orçamento está apertado.

— A gente parcela.

— Mesmo na parcela, vamos ter que cortar alguma despesa.

— O quê, por exemplo?

— O cinema do fim de semana, por exemplo.

— O cinema tudo bem.

— E o chope depois do cinema também.

— Ah não, o chope? Não faz isso.

— Chope é caro, a gente bebe cerveja em casa.

— Assim fico mal.

— Acho ainda que vamos ter de cortar mais.

— Mais o quê?

— Esse celular novo custa uma fortuna.

— Podemos vender o velho e bancar a diferença.

— Não vale a pena, este seu, usado, ninguém compra.

— Compra sim.

— Com essa tela rachada? Não vende.

— Consertamos a tela.

— Pra quê investir nisso? Fora de cogitação.

— Então é assim, não podemos comprar um celular?

— É a crise.

— Já sei, eu tenho que dar minha cota de sacrifício.

— Todos temos.

— Vão me zoar muito no instagram.

— Tenta relaxar, tem dia que até esqueço que existe instagram.

— Relaxar? Como? Uma selfie relaxada até que seria uma boa.

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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Posted in: Crônicas