Tá sumido, hein [Guilherme Tauil]

Posted on 21/06/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Basta sair de casa para dar uma volta na praça que um conhecido me interpela: “Tá sumido, hein!”. Há muito tempo que, para os transeuntes do centro, ando sumido, ainda que tenha estado mais ou menos no mesmo lugar há uns bons vinte anos. Preocupado com a condição que me vinha sendo gentilmente imposta, procurei ajuda profissional.

Não pense que me consultei com médico ou psicólogo, mas com outros sumidos, muito mais experientes, que me instruíram apenas a sorrir e responder “pois é, muito trabalho”, ou “estou estudando firme”, ou “só na correria, né?”. Nunca contestar. Justificar-se, nem pensar. Porque o sumido, aprendi, geralmente está onde sempre esteve. Quem muda são os outros.

Realmente, não faz muito sentido me julgarem por sumiço. Não ouso variar entre mais que três restaurantes, uso sempre a mesma agência de correio, frequento uma única sorveteria, meu bar preferido é o mesmo desde o primeiro gole, jamais cortei o cabelo em barbeiro que não fosse o Nilton e até ao sebo da XV, depois de ter feito a limpa nos outros, jurei fidelidade. Não troco de médico, nem de ótica, nem de ponto de táxi.

Pelo centro da cidade, tomo sempre as mesmas ruas. Há atendentes que cumprimento só por passar diariamente em frente às lojas, sem nunca ter entrado, e estranho até quando vejo um flanelinha guardando território que não era o seu. Tenho com as ruazinhas centrais uma relação estranha de confiança, de saber onde tudo vai dar. É como um guarda-roupa bagunçado que a gente conhece bem. Por mim, não sairia nunca daqui.

E mesmo que saísse, seria capaz de passar uma temporada inteira em Berlim, um semestre em Roma, um verão em Paris e não explorar muito mais que uma praça. Passar as tardes habitando o mesmo banco, só a observar o mundo. Aqueles que não conhecem a dinâmica das praças me acusam de preguiçoso. Paciência. Há tanto para ver por lá, sobretudo para flagrar, que somente as almas apressadas se entediam rapidamente. O objetivo secreto de todo homem da praça é ser Rubem Braga: um sujeito quieto, que gosta “de ficar num banco sentado, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas coisas, umas coisas que nem valiam a pena lembrar”.

Para dosar a melancolia do espaço, gosto de acompanhar as bancas de jornal. Dentro de cada uma há um universo, ainda que em constante retração. Publicações diversas convivem, numa boa, na mesma prateleira. De revistas-cabeça a revistas de bundas, da esquerda à direita, das pesquisas científicas às palavras-cruzadas, estão lá, à espera de leitor ou de um fundo de gaiola. Se você prometer não rir, divido meu passatempo preferido da praça: adivinhar o que cada cliente da banca vai levar – e depois julgá-lo, naturalmente. Essa aí, ó, tem carinha de Veja. Esse senhor está mais para um Estadão. O outro tem porte de Carta Capital, e aquele ali, digamos, um olhar meio Capricho.

Se estou aqui enquanto todos vêm e vão, onde se encontram as pessoas que me acusam de andar sumido? Provavelmente sumidas em suas próprias rotinas. No restaurante ao lado, na rua paralela, na padaria de trás, na sorveteria concorrente, na próxima praça, no banco virado para o outro lado. Sumidos à sua própria maneira.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças.

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Posted in: Crônicas