Rua do Sabão [Cássio Zanatta]

Posted on 20/06/2016

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Cássio Zanatta*

Basicamente, funciona assim: a gente acende a bucha, que na verdade deve ser mecha, nunca tocha, senão nem deve ser. Expliquemos: a mecha é menor, geralmente de parafina e não de estopa embebida em querosene, queima rápido e se apaga mais rápido ainda.

Enfim, a gente acende a mecha com um fósforo ou isqueiro (isqueiro é melhor no caso, o trabalho exige calma que o fósforo não permite). O negócio então se ilumina por dentro, acendendo através do papel translúcido, levíssimo. Esperamos algum tempo até o ar de dentro ficar mais quente e leve que o de fora e o bichão começar a subir (não, nada de explicações físicas, elas pouco explicam as palmas excitadas da molecada e marmanjos.)

E lá vai o balão subindo, subindo, devagarzinho, aos trancos, inclina ali, se ajeita lá, cuidado com o galho, vai queimar, não vai. E a gente torcendo por ele como pela última esperança. O balão subindo é a última esperança.

Opa. Já ouço a arma se engatilhando, aquele “clec, clec” que precede o tiro. Vem chumbo. Defender os balões é uma batalha perdida, bem sei. Eles queimam fábricas, incendeiam casas, põem fogo no mato, são um perigo, coisa de selvagens. Sei, claro. Mas também é boniteza.

“Quando eu era pequenino, de pé no chão, eu cortava papel fino para fazer balão.” Meu pai foi um balão que subiu e não voltou.

Lembro quando o Brasil foi tri em 70 (olha o cidadão entregando a idade). Na minha lembrança de menino, menino de tudo (olha o cidadão protegendo a idade), o céu estava – nesse caso se aplica o lugar-comum – salpicado de balões. Já disse uma vez que memória de criança é muito exagerada, mas não era um, não eram dezoito, não eram cento e quatorze, eram quinhentos, oitocentos, sonhos, estrelas, satélites, vagalumes.

Em “Quase Memória”, aquela lindeza do Cony, seria exagero dizer que um dos personagens principais do livro é um balão? No poema “Profundamente”, do Bandeira, lá estão eles, já apagados, vagando pelo céu, tão misteriosos quanto os acesos. Viva o balão, ainda que apagado.

E havia a correria atrás dos que caíam. Era uma doideira: os moleques desembestavam pela rua, pulavam muros, invadiam quintais, para chegar primeiro e levar as folhas chamuscadas para casa, como um tesouro.

Todo esse blábláblá para perguntar: não tem jeito? É preciso mesmo proibir os balões? Todos eles? Não dá para liberar nem aqueles chinesinhos, pequeninos, vagabundos, de mecha nanica, mal sobem já se apagam? Não sou entendido no assunto, mas esses representam mesmo perigo?

Se o pessoal determina a tara de caminhão que pode ou não circular em tal estrada, ou que peso de mala deve ou não embarcar em tal avião, não daria para especificar que balão pode e qual não pode subir?

Liberem os chinesinhos, ao menos, vai. Sei que as autoridades competentes (outro lugar-comum, hoje estou meio molenga) estão mais preocupadas com o analfabetismo ou a pobreza, o que é justíssimo, não passo de um crianção que se importa com essas bobagens.

Foi só um desejo besta de uma mecha aqui dentro, que eu julgava apagada, mas que em junho reacende, teimosa, e me faz olhar o céu. Se der para liberar, lindo. Se não, paciência, a gente guarda na lembrança.

“Cai, cai, balão, aqui na minha mão; não cai lá, não cai lá, tenho medo de apanhar.”

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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Posted in: Crônicas