Cinco graus [Madô Martins]

Posted on 17/06/2016

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Madô Martins*

Andamos todos aborrecidos. Povo da praia, agora temos o mar como mero elemento decorativo. Há anos, talvez décadas, não enfrentávamos um frio destes. Ocupações elementares, como usar o chuveiro ou dormir na cama, tornaram-se torturas: os ladrilhos mantêm o banheiro gelado, na entrada e saída do banho, e a água demora a esquentar; os lençóis nos acolhem como pedras de gelo e, enquanto o calor do corpo não chega até eles, há um festival de arrepios e cãibras.

A rua deixou de ser atrativo, especialmente depois que o sol se põe. Os dias são radiantes, mas a sabedoria popular prega que, quanto mais azul o céu, maior o frio, o que se confirma. À noite, o sereno deixa tudo úmido: asfalto, veículos estacionados, jardins, nossos ossos…

O mar parece gostar da estação e se diverte mudando a paisagem. Abocanha com vontade a areia em algumas praias e a cospe em outras, provocando inundações e assoreamentos. Onde moro, são visíveis as suas mordidas: a areia ganhou degraus e os coqueiros lembram ilhas, porque apenas as raízes sustentam o solo na altura original, o entorno baixou mais de um metro. Vieram à luz a base de concreto e a fiação dos postes que iluminavam as peladas noturnas (agora suspensas), as tubulações que levam o esgoto até o emissário submarino, e os jardins ganharam dunas, deixando de ser aquela planura onde os olhos descansavam.

Nos outros pontos da praia, a areia cobriu tudo: pontes e canais foram praticamente soterrados, há terra junto aos bueiros e calçadas da orla. E ondas, muitas, por toda a praia, para alegria dos surfistas, que agora deslizam sobre as pranchas em qualquer lugar, e descontentamento dos corredores e andarilhos, com bem menos espaço para circulação. Jogadores de bola e raquete estão, igualmente, prejudicados: falta área para montarem as redes ou traçarem o campo e fincar as traves. A canoagem está interrompida há mais de mês: os barcos, como os remadores, olham comprido para a água, sem possibilidade de chegar lá.

Aos poucos, outras atividades nos ocupam e novos hábitos começam a fazer parte da rotina. Lemos mais, arrumamos gavetas, colocamos os casacos para tomar ar, lustramos as botas, frequentamos cafés e cinemas. Em casa, tomamos chá, assistimos à tv debaixo de cobertas, falamos mais ao telefone ou afins, pedimos comida em domicílio. Lá fora, escolhemos as ruas onde venta menos, os locais mais próximos, a condução sem ar condicionado (antes, preferida), e acompanhamos o descer dos termômetros ao ritmo do ocaso, sem piedade da fauna ou flora expostas.

De manhãzinha, as coisas não são melhores: quem sai para trabalhar ou estudar cedo, encontra à sua espera uma temperatura de 5 graus, na mesma cidade que, mês passado ainda, castigava a população com um calor em torno dos 40…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

 

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Posted in: Crônicas