Crachá e sapato feio: um papo reto com um sobrinho [Alexandre Brandão]

Posted on 12/06/2016

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

Certa vez eu disse a meu sobrinho Cristiano — e ele não se esquece disso — que um sujeito sem crachá é incompleto. Pilhéria, uma de tantas da minha lavra.

O crachá, na brincadeira, completaria o homem por associar-se ao trabalho. Estou empregado num escritório, tenho um crachá, e isso me torna pleno. Além da questionável ligação entre trabalho e plenitude, tal evidência não sobrevive a uma análise superficial. Ainda que temporariamente, o desempregado precisa de um crachá para subir ao quinto andar para entregar seu currículo ou pedir uma grana ao amigo bem estabelecido.

O crachá é uma chave que abre as portas de prédios protegidos, parece um antídoto contra a violência, mas, de verdade, ele escancara o fato de que não resolvemos a violência. Somos mestres em criar áreas VIPs — nos blocos de carnaval, na arquitetura dos condomínios fechados, resquícios feudais num mundo que se aproxima do pós-capitalismo —, e é isso que o crachá faz, cria uma área VIP, um espaço que deveria estar isolado das agruras de um mundo contaminado. Lembro-me de “Extra II, o rock do segurança”, música do Gil, da safra dos anos 1980. Ela diz: “O segurança me pediu o crachá / Eu disse nada de crachá, meu chapa / Sou um escrachado, um extra achado / Num galpão abandonado, nada de crachá”. O Gil já conjecturava, numa lonjura do tempo, que o crachá é um símbolo da divisão nossa de cada dia, divisão que mantém os de dentro protegidos. Deus-crachá resguarde seus escolhidos. Amém!

No meu prédio, malandro não se engraça, exclama o crachá. É e não é assim, pois circula pelos corredores dos escritórios uma gama enorme de vendedores, gente que conseguiu entrar ali sabe-se lá como. Se um vendedor furou a barreira e pendurou a identificação no pescoço, qualquer um pode fazer o mesmo. Nas repartições, é comum o sumiço da marmita na geladeira ou do porta-retratos na mesa de trabalho. Rouba-se inclusive o computador da empresa. Ninguém está seguro, em lugar algum, com ou sem crachá. O crachá é um símbolo da falibilidade da segurança. É uma ilusão modelada em plástico.

Não é de hoje que nos deixamos enganar pelo cinema de sombras, confundindo as imagens distorcidas que passam na parede da caverna com a própria realidade. Sair do mundo escuro e chegar ao da luz (onde desenrola a tal realidade) custa um instante — às vezes mais, às vezes menos longo — de cegueira. O mesmo custo haverá ao fazer o caminho de volta, ainda que a cegueira do retorno não seja igual à da partida. O crachá é a ferramenta que manufaturamos durante a primeira cegueira. Cegueira não ligada ao fato de não ver — o cego, por ter aptidões extravisuais, pode muito bem produzir instrumentos úteis ao trabalho ou a qualquer outra atividade humana —, mas ao de desconhecer. O crachá é nossa ignorância convertida em objeto, em chave que não abre nem fecha, que desprotege dando pinta de proteger.

Apostamos no crachá como solução, quando ele deveria ser apenas um objeto para facilitar a identificação da pessoa com quem falamos ou o controle do fluxo de visitantes de uma repartição. Aposta errada. O que fazer para virar o jogo?

Mais educação, menos pobreza. Mais conversa, menos tiros. Mais negros, menos brancos. Mais mulheres, menos homens. Mais política, menos conchavo. Mais divergência, menos inimizades. Respeito no lugar de preconceitos.

Damos logo um passo nessa direção ou nos faltará — porque sobrarão motivos — matéria-prima para fabricar crachás demandados por inúmeras necessidades. Destruiremos o que resta da natureza e ficaremos ainda mais inseguros. O homem, Cristiano, só é completo quando é livre e vive, com suas contradições, entre iguais. No momento em que alcançarmos um naco de liberdade, bastará ao homem a meio caminho da completude, por pura conveniência social, vestir uma blusa e um sapato bonitos — nada de crachá. No seu caso, meu amado sobrinho, se já estivéssemos vivendo esses dias ainda longínquos, iria lhe faltar o sapato bonito. Corra à loja mais próxima e, pelo menos dessa vez, não pense apenas no preço — qualidade é tudo, e beleza é um braço da qualidade.

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos.

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Posted in: Crônicas