Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou? [Cássio Zanatta]

Posted on 06/06/2016

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Cássio Zanatta*

Calma, uma pergunta de cada vez. Ainda mais essas. Sério que você quer mesmo saber o sentido da coisa toda? Acha mesmo que tenha algum?

A resposta talvez esteja em um pastel. Num pastel, ué. Mas tem que ser quinta-feira, às quatro e quinze da tarde, e não deve haver muito recheio: ser pastel de vento, para que você receba a lufada  quente da sabedoria. Mastigue lentamente, como se estivesse captando os mistérios do universo entre o óleo e o orégano. E, se não deixar pingar um pouco de molho de pimenta na camiseta, nada feito, você não vai chegar lá.

Ou a verdade suprema talvez seja projetada na tela de um cinema. Mas não vá se emocionar com o filme, não chore, não embace a imagem, não soluce, que o solavanco dos ombros dificulta o entendimento. Aliás, melhor seria nem olhar para a tela, apenas beijar a moça ao lado, divida com ela o Frumelo que comprou na entrada, o namoro empresta sentido a tudo. Mas ponha ternura nisso, se virar obrigação, a mensagem fica  mais incompreensível que longa norueguês de quatro horas, sem legenda e em preto e branco.

Os vagalumes têm a revelação. A iluminação se acende e apaga, acende e apaga, aí você vai até ali saber, mas já apagou para se acender mais à frente, você vai até lá e apaga, assim por diante. Mas o vagalume está desaparecendo e a paciência em procurar, em extinção. Vênus tem a resposta, fica lá no horizonte, brilhando, faiscando um “eu sei, eu sei!”, mas quando a revela, ou você está dormindo de madrugada ou assistindo  à novela no fim de tarde.

O senhorzinho de boné que tocava violino de olhos fechados nos Batutas de São José no Carnaval de Olinda de 1987 tinha a resposta na ponta da língua. Mas você havia bebido demais, cheirado um loló vagabundo e adormeceu no colo da única pernambucana triste que já existiu.

O sésamo guarda a caverna que esconde o segredo, lá em Minas. Mas ele não abre por nada, pedra é um troço pouco afeito ao diálogo,  e se você dinamitar a rocha, ela se quebra em muitos pedaços e soterra a entrada de vez; melhor tomar banho na água gelada do riozinho ali do lado e que, de todo jeito, também sabe a resposta.

Miró sabia as perguntas todas e pintou a revelação. Aí você pega um avião cheio de peregrinos, vai até Barcelona para entender de vez, olha com cuidado para a tela, mas às vezes a coisa é pássaro, outra, estrela, na maior parte das vezes, mulher, e vai ver são as três coisas juntas e aí levou quem trouxe.

É. Esse texto não está fazendo muito sentido. Como não sei a vida faz. Talvez a graça esteja apenas em comer um pastel, ir ao cinema, beijar, olhar o céu, procurar vagalumes, ir a Olinda ou Barcelona. Se os grandes filósofos não se entendem quanto à resposta, por que eu a teria?

Ah, sim: no cinema, quando abrir o Frumelo, tenha todo o cuidado para não fazer barulho com o papel de bala. Devagar. Isso. Com cuidado. Silêncio. Que, sem silêncio, o sentido não se revela nem a pau, que ele  é muito envergonhado, demais da conta.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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