Colhendo vida [Madô Martins]

Posted on 03/06/2016

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Madô Martins*

Quintana dizia que, ao invés de viver, assistia à vida. Mas, até para isso, escritores precisam ir às ruas, fonte de inspiração preferida dos cronistas. Não necessitam sequer conversar com alguém, basta abrir olhos e ouvidos para descobrir o que faz da existência esse tabuleiro mágico em que bem e mal se misturam, opiniões divergem, fatos reais lembram piadas, tragédias desafiam o instinto de sobrevivência e cada ser humano é único, assim como sua história.

Gosto de fazer contato com o mundo exterior. Sair – o que, em família, chamamos de “bater perninha” – é um hábito diário. Quando volto, quase sempre trago comigo novos temas para desenvolver por escrito, em prosa ou verso. Ultimamente, tenho encontrado com frequência dois tipos de profissionais que sempre surpreendem: garçons e motoristas de táxi.

Guardo especial carinho pelos garçons de idade avançada que continuam na ativa. A um deles, a experiência de décadas dá o direito de permanecer alguns minutos a mais diante da mesa dos fregueses e desfiar lembranças. Quando a saudade aperta, conta sobre a infância na roça, ao lado da família, e com ele vamos até o Nordeste, ordenhamos as cabras, sentimos o mistério das lendas transmitidas boca a boca, ouvimos o que aprendeu com os pais, lamentamos a perda dos parentes, deduzimos o quanto foi difícil a adaptação à vida no Sudeste.

Com outros, seus hábitos inusitados me divertem. Um costuma lançar no buraco do poste as chapinhas das bebidas, e calcula que a coleção já preencha boa parte de seu oco. Imagino o susto, se, por algum motivo, o poste precisar ser removido e as chapinhas inundarem a rua… Outro, toma café com leite enquanto trabalha. Atende os fregueses e, de vez em quando, vai até o copo que guarda… dentro do orelhão, na calçada. Não apenas o telefone público próximo ao estabelecimento recebe acessórios: todos os garçons de lá penduram nas árvores os panos que usam para limpar as mesas.

Há, ainda, o bem-humorado que provoca os fregueses nos dias de futebol, ensaia passos de sambista entre as mesas, reconhece e cumprimenta o freguês que passa de carro, com acenos nada discretos. Todos formam uma turma alegre e batalhadora, que chega a dormir apenas 4 horas por noite e, no dia seguinte, traz seu sorriso na bandeja.

Tipos curiosos também trabalham dirigindo táxis. Conheci um que observa pássaros e fizemos o trajeto trocando nossas experiências com bem-te-vis, sanhaços, macucos, pardais, rolinhas, urubus… Outro reparou que uma antiga escola de informática fora transformada em academia de ginástica. “Pagar para suar?”, considerou. “Melhor fazer uma boa faxina, como a que fiz ontem: transpirei à beça e ainda deixei a casa limpa!”.

Assim, nas andanças, sem qualquer planejamento, vou colhendo palavras e gestos, como flores em campo aberto. Elas, sem dúvida, enfeitam minha casa interior.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas