Os meus xarás [Guilherme Tauil]

Posted on 24/05/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Ninguém tem culpa de ter o nome que tem. Por isso, procuro evitar julgamentos onomásticos. Mas o censo de 2010 do IBGE me levou a pesquisar a situação dos meus xarás pra ver a quantas andam os Guilhermes.

Antes de 1930, éramos um punhadinho, pouco mais que mil. A cada década, mais ou menos outros mil Guilhermes eram registrados. Uma expansão que acompanhava o crescimento da população – tudo normal. Nos anos 70, porém, quando o mundo virou de ponta-cabeça, as mães do Brasil acharam boa a ideia de batizar suas crias de Guilherme. Em dez anos, mais de quarenta mil chegaram ao mundo. Na década de 90, já éramos quase 165 mil, e outros 115 mil foram registrados até os anos 2000, eu incluso.

A maior concentração guilhermística está no estado de São Paulo, onde somos mais de 170 mil. No Acre, porém, não chegamos nem a setecentos. No Maranhão não somos muitos, mas não importa, pois existe lá o município Centro do Guilherme, o único que presta homenagem a um dos nossos. Quantos Guilhermes são centroguilhermenses, porém, não faço ideia.

Mas se há tantos xarás assim, onde estiveram durante minha infância? Era um colega de classe e ninguém mais. Lucas era de baciada, os Pedros formavam um clã enorme, mas os Guilhermes não tinham sequer um representante famoso. Eu me queixava com a minha mãe e ela me consolava, dizendo que tinha sim, que tinha o Guilherme Arantes. Eu chorava contido, ela me fazia um carinho no rosto e às vezes emendava o refrão de “Planeta água”.

A solução foi apelar pro estrangeiro, onde, me parece, os Guilhermes gozam de mais prestígio. Digo Guilherme querendo dizer William, no inglês. Willhelm para os alemães. Guillermo no espanhol. Guillaume para a França, e, é claro, Guilérme em Taubaté. Quando os holandeses cantam o hino nacional, entoam as conquistas de Guilherme de Orange, história narrada em primeira pessoa. Quem dera. Os brasileiros não são tão notáveis. Nenhum craque absoluto do futebol, nenhum escritor de peso. Ninguém que se compare a Shakespeare ou Cabrera Infante, por exemplo. O talento real ficou concentrado no além-mar.

Apesar de tudo, a verdade é que há até um representante no panteão católico. São Guilherme de Volpiano é celebrado no dia 1º de janeiro – mas por quem? Guilherme é um santos em devotos. Mas não se preocupe, santíssimo xará. Outros tempos estão por vir. Seguindo a moda, em breve daremos um golpe e seremos um país de Guilhermes – sei que posso contar, pelo menos, com nosso homônimo deputado, um dos que depuseram a presidente. Knowhow não nos faltará.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças. 

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Posted in: Crônicas