As mulheres sumidas [Daniel Russell Ribas]

Posted on 16/05/2016

3



Daniel Russell Ribas*

Aurélio ligou para sua mãe e a parabenizou pela data “a mulher mais importante de sua vida”. Embora o amor fosse verdadeiro, sua voz manteve o usual tom distante, algo que ambos notaram. Ainda assim, a mãe preferiu não perguntar o por quê de ele não visitá-la, apesar de morarem próximos um do outro. Como ela e, depois, Aurélio foram ensinados, homens não devem alimentar excessos sentimentais, pois se trata de uma qualidade feminina. Logo, a reserva de seu filho era compreensível e o telefonema, um gesto de gentileza. Ambos aceitavam sem questionar, pois sempre fora deste modo que os papéis eram distribuídos na sociedade.

Quando desligou, viu sua mulher passar, mas sequer cogitou lhe dirigir a palavra. Esqueceu-se do “dias das mulheres” após se despedir “da mais importante”. O resto do domingo foi tranquilo, com sua mulher vendo televisão no quarto e ele lendo o jornal ou assistindo a qualquer programa na sala. Após quase meio século de casamento, esta rotina era tão orgânica quanto acordar e dormir. Uma vida normal, natural e indiferente.

Mais à noite, Aurélio se juntou ao coro de gritos e xingamentos que protestavam em janelas e varandas de edifícios contra a suposta decadência da nação. Numa catarse coletiva, elencou em alto brado as palavras mais chulas que gostaria de dizer na frente da mulher desqualificada, esta que governava o país ou, segundo ele, “a chefe da quadrilha”. Quando retornou à sala, sua mulher, numa rara intervenção pessoal em tantos anos de uma comunicação somente funcional, lhe indagou sobre a necessidade de berrar para a vizinhança termos tão vulgares. Calou-se resignada diante a resposta de Aurélio:

– Porque é isto que vadia merece!

Sua mulher se retirou para dormir. Aurélio ficou por ficar, matando tempo entre o que quer que estivesse passando no televisor e navegando de forma preguiçosa na internet, alternando entre e-mails e sites pornográficos. Desinteressado, logo fechou os olhos.

Quando acordou, percebeu que sua mulher não estava mais lá. Embora inesperado, achou que ela tivesse saído. Estranhou foi a ausência da empregada. Leal à família por anos, jamais faltara ao serviço e até concordara em manter seu antigo acerto salarial, porque “realmente não precisava de muito”. Aurélio concluiu que, na velhice, ela resolvera “abusar da confiança”. Preparou o café e comeu sozinho. Ligou a televisão e notou que a apresentadora havia sido substituída por um homem. “Pena”, pensou, “a outra era bonitinha.” Uma ligeira desconfiança se instalou em sua mente, mas foi breve. A sensação dominante pelas próximas horas seria de exaltação por conta do destaque do noticiário: a presidente, assim como várias figuras-chave do governo, desaparecera. Enquanto demonstravam apreensão para as câmeras, Aurélio expressou seu entusiasmo em plenos pulmões. A reação dos outros moradores do prédio foi mista, entre reciprocidade e críticas a seu comportamento e opinião. Desligou a televisão, com a esperança renovada. A vadiagem acabara. Caiu em sono.

À medida que a noite cobria os homens, começou a se preocupar com o paradeiro de sua mulher. O celular de sua mulher só dava ocupado. Interfonou para a portaria, mas ninguém a tinha visto. Tentou o número da empregada, mas a chamada não completava. Por instinto, acessou a internet e leu que a manchete anterior havia sido substituída por outra, mais bizarra: todas as mulheres do mundo, de todas as idades e regiões, desapareceram num período de 24 horas. Sem qualquer indício ou justificativa. Como se nunca estivessem aqui e o mundo sempre pertencera aos homens.

De certa forma, os primeiros dias foram os mais estranhos. Um misto de incredulidade cínica e otimista que desembocava na conclusão de ser uma ocorrência breve. Extraordinária, com certeza, mas de prazo limitado. Assim que as semanas e os meses se sucederam, mais distante a certeza de uma restauração da ordem se tornou. Ao mesmo tempo, mais descobertas vinham. Embora animais com o cromossomo XX não tenham sido afetados, todas as fêmeas da raça humana haviam sido “apagadas”. Mais estranho para os que ficaram foi o fato de que mulheres transexuais também sumiam sem deixar vestígios. Era como se todo resquício do que era considerado feminino pelos homens houvesse evaporado.

O caos econômico deu as caras antes do fim do primeiro trimestre. Indústrias e lojas especializadas em produtos de gênero fecharam em maioria. Outras promoveram demissões maciças devido à falta de profissionais qualificadas para o gerenciamento específico de certas funções. A violência, em particular a tensão sexual, se agravou. Em meio ao desespero, grupos retrógrados disseminaram a culpa de minorias como o motivo por trás do “sumiço”. Tornou-se aceito o sexo com outros homens como “medida emergencial”, embora o relacionamento amoroso homossexual tenha sido vigorosamente combatido, como forma de “não provocar mais desastres”. Sem a possibilidade de geração de vida nova, a raça humana rumava à extinção. Cientistas intensificaram pesquisas e testes, todos falharam. Toda e qualquer tentativa de reprodução em laboratório e até mesmo a “clonagem” de uma mulher fracassava.

A descrença abateu a todos. As ideologias fundamentalistas deixaram de lado suas justificativas e assumiram um niilismo puro e simples, pois não havia motivos para se esconder em uma terra sem Deus. Em dois anos, a violência escalou além da capacidade de contenção.

Aurélio manteve uma rotina relativamente similar, dentro das circunstâncias, embora a saudade que nutria pela esposa o consumisse mais do que conseguia articular. Pouco antes de morrer em uma invasão à sua casa, ele conversou com o filho pelo telefone. Ambos reconheciam a gravidade progressiva, mas Aurélio mantinha o tom quase frio esperado. Para o velho, o sumiço das mulheres era um castigo divino e a prova definitiva da diferença entre os sexos. Afirmou que era tarefa do homem cuidar da mulher, pois Eva seria uma resposta à solidão de Adão. O homem teria se esquecido disso e menosprezado a mulher. Como punição, Deus teria pegado o presente de volta. O filho discordou. Para o jovem, a única distinção entre homens e mulheres era na disposição dos órgãos reprodutores e que nunca haveria uma explicação para o que houve. O filho via as pessoas em geral como bastante complexas e iguais neste sentido. Logo, a diferenciação entre os sexos não seria uma criação divina, mas do homem. O pai disse que o filho não sabia de nada. Após um breve intervalo, Aurélio fez uma pergunta inesperada pelo tom pessoal que imprimiu:

– Filho, se pudesse mandar uma mensagem para sua mulher, o que diria?
– Que a amo e sinto sua falta.

Mais uma pausa.
– E o que o senhor diria, pai?

Surgiu um silêncio comprido, entrecortado pelo barulho de respiração forte. Não se sabia ao certo o estado emocional do pai, apenas sua manifestação em um som abafado e longo. Finalmente, respondeu, embora o filho até hoje não tenha certeza de seu significado.

– Perdoe-me. – e desligou.

__________

Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

Anúncios
Posted in: Crônicas