Como é saboroso o meu francês [Luís Giffoni]

Posted on 14/05/2016

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Luís Giffoni*

Você quer conhecer o passado de Minas Gerais, quer saber como eram nossas terras, habitantes e costumes quando pouca gente morava em nosso Estado, quando nossas matas estavam quase intocadas, quando ainda tínhamos índios botocudos isolados na região do rio Mucuri e cada metro quadrado de nosso solo revelava novas espécies de animais e de plantas? Pois existe uma bibliografia razoavelmente extensa sobre esses primórdios, deixada sobretudo pelos viajantes europeus que aqui vieram após a abertura dos portos.

Entre eles, está Auguste de Saint-Hilaire, botânico e naturalista francês que nos visitou entre 1816 e 1822, ao redor dos quarenta anos de idade. Culto, curioso, aventureiro, sem travas na língua, conservador como ele só, legou-nos observações saborosas, mesmo hilariantes, colhidas em suas numerosas incursões pelo país, do Rio Grande do Sul a Goiás. Elegeu, porém, Minas Gerais como sua província favorita. Admirava os mineiros, pessoas diligentes, trabalhadoras, honestas. Reservou palavras nada lisonjeiras para os paulistas. Esteve nas nascentes do São Francisco, cruzou a Mantiqueira, foi ao Distrito Diamantífero, conheceu o Jequitinhonha.

Contou em detalhe quanto pagava pela comida, pela hospedagem, pelos serviços que lhe eram prestados. Coletou milhares de plantas, descreveu como e para que eram usadas e, precoce pirata biológico, enviou várias delas para a França e suas colônias.

Para mim é sempre um choque reler sua derradeira anotação de viagem, datada de 1822, repleta de humor e precisão, quando Saint-Hilaire tinha quarenta e três anos de idade, enquanto, ao mesmo tempo, vejo no frontispício do livro seu retrato já velho, perto da morte. Um choque. O homem que, com vivacidade, falava comigo sobre o término da segunda viagem a Minas Gerais e reclamava da condição de nossas estradas, está enterrado há cento e sessenta anos.

Eis a estranha magia dos livros: atravessam o tempo com seus personagens a tiracolo. Graças a eles, Saint-Hilaire não morreu e não permitiu que a memória da antiga Minas Gerais desaparecesse. Além disso, seu relato continua saboroso.

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Luís Giffoni tem 25 livros publicados. Recebeu diversas premiações, como do Jabuti de Romance, da APCA, do Prêmio Nacional de Romance – e de Contos – Cidade de Belo horizonte, Prêmio Minas de Cultura – Prêmio Henriqueta Lisboa. No momento trabalha num romance que viaja pela América do Sul. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados. 

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Posted in: Crônicas