O falo falido [Guilherme Tauil]

Posted on 10/05/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)

Guilherme Tauil*

Quando me oferecem um cigarro, faço questão de verificar a embalagem. Se for a da impotência, recuso. Aquela estampa tenebrosa, em que um homem em mais de um sentido cabisbaixo está coberto pelo polegar negativo da moça, ecoando o gesto fatídico dos imperadores no Coliseu, é capaz de derrubar qualquer guerreiro impotente, digo, imponente.

Perdoe a falta de rigidez, mas essa história começarei do meio: estávamos bem empenhados, ela e eu, quando aconteceu. O aprumo dos homens me escapou. Esvaiu-se a verve. Crispou-se a criatura. Causa mortis: desconhecida. Tentei retornar às vias de fato, mas não houve jeito. Minha vez tinha chegado e não havia nada a ser feito. Sofri um golpe duro, mas num sentido amolentado. Sem querer confiar a outras extremidades a tarefa de retomar a aptidão, me propus a desbravar a rua atrás do tal cálice azul.

Percorri corajoso o caminho que costumava tomar com a cautela das presas. Era um cavaleiro em busca do Santo Graal, que, veja só, até se aproxima do Viagra: eram duas lendas que moveram muitos homens e sobre as quais já tinha ouvido falar, mas nunca – nunca! – pensado em persegui-las eu mesmo.

Chegando à farmácia, poderia ter puxado o atendente para o canto e fitado seus olhos em silêncio – não demoraria para concluir, vendo um rapaz arfante de camiseta pelo avesso no meio da madrugada, que a única coisa firme ali era sua determinação. Num ritual de fraternidade, me entregaria as pílulas numa embalagem discreta, quem sabe desse um desconto e, sem nada dizer, ia me encorajar a voltar para casa com a cabeça finalmente erguida. Mas o balconista foi insensível e, antes de perguntar se queria CPF na nota, senti seus olhos em mim: calculava minha idade, somava fatores prováveis, subtraía os improváveis e a conta não fechava – quase pude ouvi-lo lamentar, como se velasse um cadáver prematuro: tão jovem…

Sem sequer agradecer, desci um azulzinho com a saliva de imediato. Ninguém tinha avisado que apenas um quarto teria saciado minha juventude. Voltei movido pela adrenalina, certo de que poderia derrubar quantas gladiadoras e leoas fossem. Foi chegar em casa e apalpar a realidade, porém, para perceber que ainda estava em condições abrandadas. O corpo todo pulsando, mas o tangível falido – Nero tocando lira enquanto Roma ardia. Achei que já era hora de horizontalizar as coisas e engoli um segundo comprimido. Mesmo às custas da ternura, hay que endurecerse.

Meu coração parecia que ia estourar. Os pulmões já não cabiam mais no peito. Mas não eram os órgãos superiores que me preocupavam. Os fluxos se redistribuíram vigorosamente pelo corpo, e senti que a masculinidade tinha se perpetuado em mim. Estaria disposto para sempre. Era a materialização do pesadelo adolescente de estar constantemente avolumado, mesmo em situações enternecedoras. Aceitei de bom grado a inflexibilidade da juventude: era desse espírito que precisava para sair (metaforicamente) daquele buraco.

Mas os homens são frágeis mesmo depois de reerguidos. Voltando ao quarto, no escuro e em silêncio, adivinhei que a moça deitada aguardava, quietinha, o glorioso retorno. Isso até sua respiração desembestar acelerada: indiferente à epopeia do gladiador, ela começou a roncar de grunhir. Dormia o sono dos imperadores.

Desconfio que foi depois de esmorecimento dessa natureza que o Homo Erectus, lá na caverna, confrontado com sua inapelável limitação e desimportância, não viu saída senão dar um passo adiante e promover-se, enfim, a Homo Sapiens.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças. 

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Posted in: Crônicas