O perfume da manga [Cássio Zanatta]

Posted on 09/05/2016

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Cássio Zanatta*

Entro na cozinha e me captura o perfume de uma manga. Num segundo me invadem outros anos. Devia ser obrigado a todo mundo ter em casa uma manga ou uma goiaba ou caju para fazer cheirar. E então, esquecer um instante as aporrinhações, os tropeços e os telefonemas que não se quer receber.

O perfume me chuta sem apelação pela janela do oitavo andar; por medo de altura, fecho os olhos. E despenco em um quintal de São José, dou com minha mãe chupando manga.

Nunca vi alguém mais louco por manga. Diante de uma coquinho, ela se transformava, disputava a fruta no tapa com os marimbondos. Vitoriosa, cravava os dentes e com eles puxava a casca, revelando o amarelo da polpa e aquele perfume que tanto ornavam com ela. Então, virava uma moleca, lambuzava a boca, o queixo, os dedos, tudo pegava manguice.

Sabia o leitor que o fio dental foi inventado por uma boca fissurada por manga? Não há comprovação científica para tal afirmação, mas é bem possível que assim tenha sido. O fiapo no dente é a única contraindicação da manga.

A verdade é que não fui chutado pela janela não, me empolguei um pouco na imagem; apenas peguei a manga na fruteira e a descasquei. Não era uma coquinho, era espada, das bitelas, exigia a ajuda de uma boa faca ou do canivete do meu pai, que ficou para o irmão do meio.

Descascar manga com faca reduz um bom tanto do encanto. Sem contar que sou preguiçoso e inábil em descascar. Talvez por isso prefira as bananas, mexericas e frutas do conde, mais facinhas. Para descascar laranja ou lima, a vida toda dependi do socorro de uma boa alma.

Pronto. A manga está descascada, só espera pela mordida, seu amarelo-ouro brilha feito um tesouro melado. Antes, reparo que, na minha falta de jeito, deixei uns belos nacos presos à casca. Não vou jogar fora, vou deixar no cantinho da janela aberta. Quem sabe venham umas abelhas e marimbondos e aproveitem esse resto.

Só pena mesmo que dona Celina não vá surgir de repente, mostrar aos bichos quem manda, se deleitar e depois me abrir aquele sorriso muito branco, com amarelos em volta da boca e fiapos nos dentes.

Em todo caso, deixo o fio dental de butuca.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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