Emily Dickinson [Mariana Ianelli]

Posted on 07/05/2016

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Mariana Ianelli*

Foi num sábado de maio que ela morreu, há 130 anos, gloriosamente anônima para os desconhecidos, inesquecível para os seus amigos epistolares, que já a consideravam mítica, um pouco naïf, melancólica, excêntrica, enigmática. O sol estava lá, era uma tarde amarela sobre o amarelo dos botões de ouro, cor rara na natureza – ela diria, como são raras as palavras de amor.

O gosto pela geometria no trajeto de casa até a igreja para o culto de domingo continuou depois da vida, nas instruções deixadas para o próprio cortejo fúnebre, que, antes do cemitério, devia circundar o jardim de casa. Era como mais um poema, agora um poema sem palavras, todo feito de travessões, um último elogio branco àquele mundo que ela tão bem conhecia, seu paraíso terrestre de abelhas, borboletas, grilos, cogumelos e flores várias, violetas, gerânios, jasmins, margaridas, lírios-do-vale.

Desde que a irmã descobriu seu tesouro milionário de poemas, naqueles célebres sessenta volumes atados, a fama não demorou a invadir o espaço privado de Emily Dickinson. As publicações, que em vida nunca haviam acontecido senão anonimamente, começam a borbotar já em 1890, multiplicando-se em reedições, até se tornar mundialmente público, às portas do novo século, o mito da solitária de Amherst, a grande reclusa.

Ela, que não conheceu o mar, intuía suas vagas pela urze que o vento ondeia. O mesmo com a fama: sem a ter provado, intuía que era falso diadema. Era poeta de outras glórias, de experiências à volta de sua casa em busca de cogumelos, na observação dos pardais, dos crepúsculos e dos relâmpagos, na ciência dos jardins, no poder de onipresença de suas cartas, nas notícias de morte na vizinhança, com a chegada do médico, depois do pastor, depois do alfaiate, e, por fim, das crianças.

Ela, tão ocupada com o espanto de existir, com as colmeias, as minas e os vulcões da sua geografia doméstica, tão ocupada em amar, que mal lhe sobrava tempo para outras atividades. Pensava, por exemplo, na responsabilidade de ser uma flor, com a ameaça da lagarta e o assédio das abelhas, o direito ao orvalho e a tarefa de temperar no corpo vento e calor na medida certa. Dizia-se solitária, clandestina, insignificante criatura, fantasma, fênix. Assinava suas cartas como Emilie, Daisy, Aluna, Modoc, America, Judas. Mesclava citações estudadas dos Evangelhos e das Epístolas, versos de Longfellow e Wordsworth, personagens de Shakespeare, Dickens, Byron, Charlotte Brontë. Dava-se aos devaneios da imaginação, amava-os por serem possibilidades.

Aos 15 anos, confessa numa carta que já guarda a morte de uma amiga como primeira perda irreparável. Aos 18, coleciona suas flores favoritas. Aos 22, sente-se velha, com um coração de pedra, vê-se de olhos fechados, morta, num vestido branco, com uma flor de campânula junto ao peito. Aos 25, diz-se cada vez mais pobre pelos afetos que vai perdendo. Aos 32, relembra sua infância na natureza, sua intimidade com os seres do bosque, dos quais se aproxima sem medo de serpentes. Aos 36, ouve um rio correr, sente os cheiros da terra se misturando e lentamente vai saboreando uma impressão de evanescência. Aos 40, vê Amherst como um éden de flores atrevidas e conclui que a vida, a vida sim é o segredo mais sutil que existe, e sua brevidade a melhor razão para ousar. Aos 45, sua casa se transforma numa casa de neve, sem pai nem vento nem pássaro. Aos 47, numa carta ao crítico Thomas W. Higginson, registra uma de suas máximas surpreendentes: a de que “Hamlet hesitou por todos nós”. Aos 51, cuida da metade de sua mãe ainda presa à vida, paralítica, a outra metade extraviada por saudades do pai. Aos 54, no Dia de Finados, distribui flores para os seus mortos, lírios para o infante defunto Gilbert, seu sobrinho, espinheiros brancos para o pai e a mãe. Aos 56, dias antes da sua hora, avisa às primas Norcross numa carta mínima como um sopro: “Chamada de volta”.

Com uma poesia cheia de disjunções e uma personalidade aparentemente etérea, Emily teve uma fama póstuma que várias vezes cobiçou preencher seus espaços em branco. Houve cirurgiões que lhe corrigiram a gramática, críticos que traduziram sua vida simples e austera em subtextos de solipsismo, depressão, lesbianismo, ingenuidade. Para entusiastas e estudiosos do mundo inteiro, são virtudes suas a ironia, a liberdade por trás do anonimato e uma modernidade antes da modernidade.

Alguém pode submergir em vertiginosas interpretações sobre a casa como cárcere ou sepulcro na poesia de Emily, em suas metáforas para o abismo ou em suas inspirações medievais e elizabetanas. Pode alguém ver paisagens da Líbia, de Genebra, do Brasil, da Itália, da Judeia e da Tunísia numa alma. E ver os cumes do Himalaia e dos Apeninos nessa alma. E em suas profundezas a lava do Vesúvio e o brilho esconso de diamantes, ametistas e esmeraldas. Pode alguém, finalmente, mergulhar nas centenas de cartas de Emily e em seus quase 1.800 poemas: o que encontrará, nos muitos espaços vacantes, vermelho sob o branco, é a viva respiração de um êxtase.

emily

Ilustração: Alfredo Aquino 

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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