Magnetismos [Madô Martins]

Posted on 06/05/2016

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Madô Martins*

Nossa praia está irreconhecível. Dos sete quilômetros, pelo menos quatro parecem ter sido bombardeados, como se navios de combate, desde a barra, apontassem os canhões em nossa direção, da mesma forma que no século passado, durante a Segunda Guerra Mundial. Ressaca é o nome do fenômeno que suprimiu grande parte da areia, deixando expostas as raízes dos coqueiros, as caixas de serviço, fios e tubulações, antes subterrâneas. Ela também assoreou os canais, impedindo que o mar neles circulasse, tornou inútil as pontes, quase inteiramente cobertas pelas águas, destruiu muretas e deques com a força das ondas, alagou garagens e estabelecimentos comerciais, entre outros estragos.

Mesmo assim, a praia nos atrai feito ímã. Sopra um vento frio por aqui, mas quem convive com o oceano não resiste a um passeio, ainda que agasalhado. Com a faixa de areia drasticamente reduzida, os que antes caminhavam por ela agora disputam espaço com os demais, tornando estreitas as calçadas. O mar ainda não amansou e os jornais preveem que nova ressaca acontecerá em breve, para temor dos moradores e comerciantes da orla. Entre as possíveis causas consta o magnetismo da Lua sobre as ondas, mas também, o recente trabalho de dragas que vêm aprofundando o leito do canal por onde passam navios cada vez maiores, a caminho do porto.

São raros os que se atrevem a um mergulho, com exceção dos surfistas, favorecidos com o intenso movimento das marés. E, na linha do horizonte, veleiros deslizam ao sabor do vento forte, as velas infladas enfeitando a paisagem outonal. Além dos surfistas e velejadores, só um punhado de corajosos insiste nos trajes e costumes de verão.

Na praia próxima ao quartel da PM, um grupo de recrutas que costuma se exercitar na areia e no mar, ainda podia ser visto em atividades mais moderadas, com os mesmos short azul e camiseta branca. Crianças não davam a menor importância para o friozinho e as poças: o menino brincava animado, no interior de uma das barracas de lona que os clubes e associações costumam armar para os associados – completamente vazia –, indiferente à água que lhe cobria os tornozelos. Já nas concorridas quadras de jogos, as redes não atraíam um único atleta, inclinadas pela força da maré ou desmontadas e abandonadas sobre a areia que deixou de ser um piso regular.

Entre as mulheres, poucas se atreviam a exibir o corpo. Mas uma delas, usando biquíni, passou muito perto dos soldados, num ponto onde a areia se estreitava ainda mais, junto à calçada. Os rapazes, sentados em fila, giraram a cabeça, um a um, à medida que a garota os ultrapassava, acompanhando seu andar. Magnetismos…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas