Balanço em dias de crise [Alexandre Brandão]

Posted on 01/05/2016

14



(Imagem: Átila Roque) 

Alexandre Brandão*

Nunca molhei a mão de um policial. Não economizo água. Bebi uns gorós antes dos 18 anos. Lá em casa, somos severos em matéria de não estimular os filhos a beber antes do permitido. Não furo sinal de trânsito, mas já furei alguma vez e sei que, em alguns cruzamentos com assaltos recorrentes, o sinal deve ser furado. Costumo atravessar a rua fora da faixa de pedestre. Nem cuspo nem jogo papel ou outra coisa na calçada. Desobedeço a velocidade máxima permitida com alguma frequência. Já me esqueci de declarar seiscentos reais no imposto de renda, o que me custou apresentar-me à Receita e retificar a declaração. Tenho função doméstica bem definida — lavo louças, principalmente —  e, se não sou belo, pelo menos recatado eu sou. Hoje não dirijo caso tenha tomado um gole de cerveja, mas já dirigi completamente bêbado. Na infância, roubei fruta no pé. Certa vez, num restaurante, enquanto pagava a conta no caixa, fui assaltado com uma arma apontada para minha cabeça, e, passado o susto, o dono do restaurante me disse que os assaltos aconteciam quando ele não pingava a propina dos policiais. Fui o único a levantar a mão quando a professora perguntou se alguém já… E respondi afirmativamente à mesma pergunta quando feita por meu pai. Fumei, traguei, mas nunca vendi ou revendi. Nunca roubei livros, nem de amigos, mas, confesso: há uns vinte anos mantenho sob empréstimo um do Calvino cujo dono é um irmão, um brother mesmo, como vocês hão de convir de um sujeito que nunca cobrou o livro. Já menti por amor (canalhice). Menti também por covardia. Contei verdades que, se não contadas, não fariam diferença alguma na vida dos envolvidos. Amei mulher do próximo sem ser correspondido, minto, uma vez fui. Tenho orgulho de alguns votos nas muitas eleições da qual tenho participado, mas de outros tenho nojo (o famoso “menos pior”, escolhido numa conjuntura desfavorável). Para não pagar a passagem, pulei de um ônibus em movimento e me machuquei sem gravidade. Não dou esmolas. Trato as mulheres com respeito, mas às vezes quebro o pescoço para acompanhar alguma que tenha achado bonita. Nesses casos, em hipótese alguma, assobio ou falo impropérios. Ouço piadas de anão, negro, mulher, bicha, sapatão, presidiário, burguês, papagaio e português. Rio de quase todas, nunca das de negro. Não sei contar piadas, apesar de ser um pouco engraçado. Alguma vez joguei no bicho, mas nunca fui a desfiles de escola de samba, nem sambando na avenida nem sentado na arquibancada. O Zé Porteiro, que cuidava da portaria do prestigiado Passos Clube, por conhecer a todos, não permitia que eu entrasse nos bailes antes de completar a idade exigida. Nunca falsifiquei carteira de estudante ou outro documento. Não costumo comprar de camelôs, sinto falta da garantia e de outras formalidades no ato de compra e venda. Compro de lojas, mas não sei até que ponto suas mercadorias estão de fato formalizadas. Uso o Uber. Já paguei menos a médico em troca de não receber seu recibo. Nunca pedi um recibo a um médico sem ter usado seus serviços. Vivo há 30 anos uma união consensual desprovida de papéis lavrados em cartório. Guardo segredos. Tenho segredos que não confio a ninguém. Nunca matei passarinho, embora tenha tentado. Nunca me ofereceram propina. Não sou sócio de clubes nem militante de partidos políticos porque desconfio deles e provavelmente porque não confie muito em mim. Apesar disso, sou botafoguense. Jamais roubarei picolé de uma criança.

__________

* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

Anúncios
Posted in: Crônicas