Defesa boa é a que funciona [Marco Antonio Martire]

Posted on 27/04/2016

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(Imagem: Marcelo Oliveira)

  Marco Antonio Martire*

— Diz aí uma coisa: você pensa enquanto come?

— Só na fome, e você pensa?

— Também não.

— Por que a pergunta então?

— Ando precisando pensar, mas estou sem tempo.

— Não tem tempo… o que você faz com suas horas de folga?

— Passo a maior parte delas me defendendo.

— Sei como é, tem sido difícil para mim também.

— Você se defende do quê?

— Outro dia mesmo eu tentava defender a minha mãe.

— Mãe é fácil defender.

— Não a minha mãe, defender minha mãe leva uma semana inteira.

— Semana passada eu precisei defender meu chefe.

— Aí não, defender chefe é muito ruim.

— Põe ruim nisso, a sexta-feira não terminava nunca.

— Mas no fim de semana você conseguiu pensar à vontade.

— Nada, eu tinha um churrasco com os amigos.

— Sei.

— Tive que defender os amigos, não podia deixá-los na mão.

— E no domingo você relaxou, conseguiu pensar enfim.

— Depois do jogo eu bem que tentei um pouquinho.

— Pensou o quê?

— Tive umas idéias, mas acho melhor refletir sobre elas.

— Opa, se precisa refletir é porque pensou coisa boa.

— Não, até que não, bobagens.

— Conta qual foi a idéia.

— Deixa quieto.

— Vou dar um conselho pra você: anota.

— Sério? Tem que anotar?

— Eu anoto tudo o que penso.

— E é muito tudo isso o que você anotou?

— Porra, é quase uma constituição.

— Uma constituição, que legal!

— É muita coisa, não vou negar.

— Se eu não me defendesse tanto, também poderia escrever uma.

— Não é fácil, e precisa caprichar no final.

— Já tem final?

— Sim, mas falta um título.

— Que tal: a melhor defesa é o ataque?

— Já foi usado, eu pesquisei.

— Diga-me quem defendes e eu te direi quem és.

— Bastante óbvio, mas é por aí.

— A voz que pensa é a voz de Deus.

— Essa não, foge demais do assunto.

— Acho que vou anotar o que falei.

— Anota mesmo.

— Não que eu ache que Deus precise de defesa.

— Não precisa, Deus é indefensável.

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Marco Antonio Martire é carioca, formado em Comunicação pela UFRJ. Publicou os contos de “Capoeira angola mandou chamar”, a novela “Cara preta no mato” (ebook) e participou como autor das coletâneas de contos “Clube da Leitura – volume III” e “Escritor Profissional – volume 1”, ambas pela Editora Oito e Meio. É membro do Clube da Leitura, coletivo que organiza eventos de leitura e criação no Rio de Janeiro. Escreve na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras.  

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