Olha o palavreado! [Guilherme Tauil]

Posted on 26/04/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)  

Guilherme Tauil*

Gosto de listar coisas. Tenho vários caderninhos em que anoto esquisitices na esperança de que um dia sirvam de algo. Na falta de assunto melhor (perdoem a honestidade), resolvi usar meu caderno de palavras feias do português – a última flor do Lácio é mesmo bela, mas tem seus momentos grotescos.

Pedi ao Chico Buarque que participasse da brincadeira sugerindo alguma de sua coleção. Muito educadamente, o compositor recusou o convite, alegando que para ele todas as palavras são bonitas.

Quanta demagogia, pensei, mas depois compreendi: somente uma alma em total comunhão lexical poderia afirmar isso. Afinal, já usou um “larápio rastaquera” em seus versos, sem contar aquele “paralelepípedo” do samba. Mas quero ver compor uma música com “cônjuge”, “hachura”, “nabal”, “vacúolo” e “anacoluto”.

Recorri então aos cronistas, que não podem ter nenhuma cerimônia literária. Humberto Werneck me respondeu por e-mail, em negrito, fonte 72: “fronha”. Ivan Angelo ficou em dúvida se “munheca” era feia ou se guardava alguma beleza exótica, como “gerúndio” e “calopsita”.

Fabrício Corsaletti detesta “pomba”, mas simpatiza com “paloma”, sua correspondente em espanhol, muitas vezes mais poético que o português: o nosso terrível “procrastinar”, por exemplo, lá é “trasmañanar”, que faz todo sentido. Gosto dessas palavras honestas que são o que parecem ser, como “trambolho”, que já é um trambolho, e “carcar”, o verbo mais sincero de toda a língua.

Há outras feinhas mas também honestas, como “marmita”, que não passa de uma marmita, “ânsia” (dizê-la é quase vomitá-la) e “camburão”. Ninguém pode imaginar que um camburão seja, sei lá, uma ferramenta – diferente de “ranho”, que bem poderia ser uma peça de carro. Emperrou o ranho, vai ter que trocar.

Luís Henrique Pellanda, cronista de Curitiba, chegou a desenvolver uma teoria: palavras verdadeiramente feias são aquelas que pioram as coisas que nomeiam. “Ósculo”, por exemplo. Um beijo é uma coisa simples, gostosa. Mas um ósculo é algo medonho. “Oscular é morrer pela boca”, arrematou. É como os bebês, disse: “embrião” é uma palavra feia, assim como o que está sendo gerado. “Feto” é fria, frágil, ninguém quer abraçar. Mas “neném” é carismática, dá vontade de fazer carinho. É uma palavra que ri.

Ainda insatisfeito com a lista, pedi ajuda à sabedoria popular e repassei a pergunta aos amigos. Recebi muitas palavras horríveis que designam coisas também detestáveis. Essas não valem, pois ficaram feias por contaminação. É o caso de “cágado”, “estrambótico”, “chafurdar”, “diarreia”. Acontece também de palavras bonitas significarem algo negativo, como as sonoras “guerra” e “fome”.

Uma outra categoria de palavras feias é a das misteriosas, como “féretro”, “criptografado”, “ululante” e “lúgubre” – se não souber o que significam, deixe estar, melhor não mexer, vai que é coisa ruim.

Muitas palavras são boas de dizer mas deixam um gostinho meio amargo no final, como “calhorda”, “pacote”, “libido”, “facção”, “lâmpada”, “biscoito”. Experimente dizê-las em voz alta e depois pense no que acabou de falar. Bis… coi… to? Não faz sentido algum.

Também não fazem sentido as palavras muito afetadas, sem uso prático, que deveriam ser substituídas por outras mais palatáveis: “rosbife”, “crisântemo”, “vinagrete”, “fúcsia”.

A lista é infinita, com categorias muito variáveis. Existem palavras burguesas, como “trâmite”, que acredita na meritocracia e vive dizendo que bandido bom é bandido morto. “Cãibra” é uma palavra feia de esquerda, está na boca do povo, na coxa do trabalhador.

E, é claro, existem as palavras que não têm salvação. “Sovaco” (“axila” não ajuda), “maçaneta”, “almoxarifado”, “cambalhota”, “gabarito”, “deputado”, “assepsia”, “salame” – todas horríveis. Essas, tadinhas, acho que nem o Chico Buarque…

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças. 

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Posted in: Crônicas