O zumbi de Betânia [Mariana Ianelli]

Posted on 23/04/2016

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Mariana Ianelli*

Por acaso perguntaram ao homem se ele queria reviver? Não, não perguntaram. Removeram a pedra da entrada da gruta onde ele havia sido posto para se desfazer em paz e de lá Jesus o mandou sair caminhando mesmo depois de quatro dias morto para este mundo. Do fundo da gruta o homem sai, mãos e pés atados, o rosto envolto num sudário, fantasmagórico, arrancado da sua jornada além-túmulo para tornar-se prova de glória divina. Pobre cobaia de um milagre, fadado a morrer não uma vez, senão duas. Alguém antes tão discreto, de repente atração de um povo que se amontoa para ver claudicar sobre a terra o zumbi de Betânia. Na versão do irlandês Colm Tóibín, o homem revive sem mais se encaixar neste mundo, a todo momento se havendo com o segredo da sua jornada interrompida, um segredo inconfessável, causa do horror dos outros. Passado o furor público da novidade, cada qual de regresso à sua rotina, fica lá o infeliz, lazarento como o outro, o santo de mesmo nome, com ele confundido no estigma vocabular dos dicionários, um morto-vivo de quem ninguém mais quer se aproximar. Se encarada como um fato, a história tem de espetáculo tanto quanto de terror fantástico. Como pílula de fábula para uso cotidiano, serve de sobreaviso a quem sonha reviver seus cadáveres, a quem se nega que eles um dia naturalmente se acabem, a quem insiste em destampar suas grutas, exigindo que lá do fundo saia de novo para luz aquilo a que estavam habituados, não importa em que condições, com que trapos e amarras, mesmo cheirando mal, se arrastando, relutante, coisa pálida por fora, por dentro empapada de sombras.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas