19 de abril [Madô Martins]

Posted on 22/04/2016

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Madô Martins*

No dia 19, fui realinhar o esqueleto e o fisioterapeuta me colocou nas costas umas faixas negras que aliviam as tensões, ao mesmo tempo em que corrigem a postura. Na rua, cruzei com um menino com o rosto manchado de vermelho. Achei que podia estar com alguma doença infantil, dessas que os pequenos pegam uns dos outros, ou afogueado de tanto correr, porque passou por mim a jato, deixando a mãe para trás. Só mais tarde, atentei para a data: o garotinho voltava da festa do colégio, em homenagem ao Dia do Índio, e a pintura já se desfizera no trajeto até a casa. Pensei que podíamos ser dois índios na calçada, ele com a pele tingida de urucum e eu, de jenipapo cujo caldo, em contato com o corpo, torna-se negro e demora pelo menos uma semana para desaparecer. Devo manter as faixas de dois a cinco dias, o que não é muito diferente.

Até o ano passado, índios da região reuniam-se numa grande festa, em Bertioga. Ali mostravam aos brancos seus rituais, cantos e danças, participavam de gincanas, vendiam artesanato e, mais que tudo, viviam uma grande confraternização entre tribos normalmente separadas pela distância das tabas. Desta vez, porém, a crise econômica dos municípios mais a ameaça da dengue e seus desdobramentos motivaram o cancelamento do evento.

Assim, as comemorações do 19 de abril ficaram restritas às escolas. Os jornais locais não publicaram uma única linha a respeito, talvez por acreditarem que todo dia é dia de índio, como diz a música. Suas páginas andam ocupadas por notícias de outras tribos, de estranhas etnias, nem um pouco interessadas nas singelezas do calendário…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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Posted in: Crônicas