A vida em uma página [Elyandria Silva]

Posted on 19/04/2016

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Elyandria Silva*

Uma página é muito pouco para se contar uma vida. Ou pode ser o contrário também, uma vida é pouca demais para encher uma página. Tem os que enrolam, inventam e querem mostrar coisas que nunca fizeram, línguas que nunca falaram e contar sobre estudos que talvez nunca sonharam em fazer porque desejavam ser outra coisa na vida. Desejavam ser aquilo que ninguém (os mais próximos) desejou para si. Wislawa Szymborska me ensinou a descortinar o ato de fazer um currículo em pequenos fragmentos antes só pensados, nunca colocados em palavras: “O currículo tem que ser curto / mesmo que a vida seja longa. / Obrigatória a concisão e seleção dos fatos. / Trocam-se as paisagens pelos endereços e a memória vacilante pelas datas imóveis. De todos os amores basta o casamento, / e dos filhos só os nascidos.” Ela, a poeta, me ajudou a descobrir que é doloroso zipar uma vida, compactá-la num pequeno arquivo, em poucas palavras, em resumos gritantes daquilo que não se pode contar porque ninguém quer saber. Muitos gostariam de contar, no currículo, sobre os amores que viveram, os sonhos que realizaram, as paisagens que os olhos gravaram, as aventuras que a alma recatada esconde. De jeito nenhum! Se quiser contar tudo isso melhor escrever um livro ou criar um blog. Currículo é coisa séria para um mundo de gente séria. Fatos comprovados, com referências. Endereços, datas de início e término. É por ele que se começa a ganhar o pão de cada dia. Sem romantismos, sem fantasias, é a vida real.

Outro dia, ensinando a fazer currículo, um aluno, bem sério, me perguntou: “Dormir é hobby professora? – Não, respondi, também bem séria.”

Escreva o currículo em terceira pessoa. Um narrador de si mesmo tentando abreviar a existência com verbos no passado. Isso é que o torna mais interessante! Uma narrativa autobiográfica em tom formal, que, muitas vezes não se mantém em pé, abreviada em tópicos para convencer alguém que somos bons o bastante para merecer aquele cargo e salário.  Há quem não consiga convencer nem a si mesmo de que sua história é boa o bastante. Faz tempo que não atualizo o currículo. Por ora, as comprovações tornaram-se desnecessárias, coisa do passado. Quando o leio parece falar de outra pessoa, outra vida, personagens esquecidos que saíram de cena há muitos anos. A história mudou bastante, teve final feliz.

Vidas muito resumidas tornam-se tristes porque o bom é contar em detalhes, ressaltar as partes mais importantes, dar-lhe relevância ao ponto de brilhar. A vida é para se contar, não para ocultar. Quem emprega de nada disso quer saber. Fosse eu empregadora pediria de tudo um pouco, pediria a vida contada em pormenores em muitas folhas, com capítulos, mesmo em linguagem simples, mas isso é para quem lida com letras, deixa para lá.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas