No Jardim de Tom e Dom [Daniel Cariello]

Posted on 14/04/2016

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Daniel Cariello*

Sonhei que devia ir ao Jardim Botânico. Coisa parecida já me havia acontecido quando morava na França e, seguindo uma orientação que me chegou enquanto dormia, fui a um encontro na Place de la République, sem nem saber quem deveria ver por lá. Desprevenido, achei Paris.

Antes mesmo de ter tempo de me perguntar se estava virando esquizofrênico, pulo no 581 e desço no jardim criado por Dom João VI, em 1808, quando a família real portuguesa se instalou no Brasil, fugindo de Napoleão. Há anos não venho aqui, o lugar preferido de Tom Jobim no Rio de Janeiro. O maestro jurava conversar com as aves. Eu não duvido.

Na bilheteria, pego um mapa do local, dobro e guardo no bolso, pra não mais consultá-lo. Prefiro andar sem rumo. Passo pelo cactário e me meto em uma trilha beirando a Mata Atlântica. Vou até o fim do caminho, onde encontro um aqueduto do século XIX, ainda em funcionamento. Encho a mão de água e derramo-a sobre a cabeça.

Já é abril, mas o verão insiste em não dar lugar ao outono. Mesmo se, na cidade maravilhosa, outono não signifique folhas amareladas caindo por terra, mas apenas uma bem-vinda e necessária folga para o mercúrio dos termômetros, ainda batendo nos 30ºC.

Como quase todos aqui, estou usando meu traje de gala carioca: chinelo, bermuda e camiseta. Exceção feita a dois americanos metidos em sapatos sociais, jeans e camisas de botão e manga comprida, providencialmente dobradas na altura do cotovelo. Vendo seus rostos vermelhos e transpirantes, a medida não parece ter tido muito efeito. Ofereço water. Eles dizem thank you. Respondo you’re welcome. Eles drink e smile para mim. Eu aceno goodbye.

Ando um pouco mais e chego ao lago, onde dois franceses passam com seus inevitáveis sotaque na boca e piquenique na mão. Piquenique é esporte nacional na França. Quando chega a primavera, os parques são tomados de gente, cestas e toalhas, loteando cada centímetro do gramado. No Brasil, não podemos ocupar a relva, ela não foi feita para ser usada.

Um casal de japoneses ignora essa regra e a placa “Não pise na grama” e avança para encontrar o melhor ângulo e disparar cliques como se não houvesse amanhã. Uma família se abriga do sol ao lado de grandes palmeiras, fazendo imagens de tudo ao redor, inclusive do segurança que passa pedalando sua velha Barraforte. Dezenas de visitantes interrompem suas caminhadas para tirar fotos e selfies em frente às vitórias-régias gigantes. Uma criança aponta para a tartaruga que nada perto das flores e seu pai registra o momento. Eu anoto tudo isso no caderno e, quando percebo, eles estão me fotografando também.

Depois de um tempo, levanto e dirijo-me à saída. Antes de alcançá-la, tonto do calor de meio-dia, paro pra me abrigar do sol embaixo de uma grande e generosa árvore, que espalha seus galhos como braços que tocam a grama e fazem as vezes de banquinhos. Ou de trilhas para quem se aventurar a nela subir.

Logo ao lado, dois jovens dormem em bancos de concreto e têm seus sonos e sonhos guardados pelo busto de Dom João, impávido em sua eterna vigília desse Éden tropical. Nem o canto das aves no céu e das aves no chão é capaz de nos acordar.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, publicitário, jornalista e escritor, além de cronista para veículos como Le Monde Diplomatique online, Meia Um e Veja Brasília. Lançou dois livros de crônicas pelo selo Longe, do qual é um dos criadores. Colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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Posted in: Crônicas