Veja bem [Guilherme Tauil]

Posted on 12/04/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)  

Guilherme Tauil*

“Imagine, são seus olhos”, disse a moça, envergonhada com meu elogio. Meus olhos? Qual o problema deles, além de tantos graus de miopia e mais um bocado de astigmatismo? Nunca acusados de nada, seguiam orbitando em paz, ainda que incapazes de me revelar o mundo sem a ajudinha de umas lentes.

Venho de uma linhagem de gente que enxerga mal, não posso fazer nada. Meu antepassado morreu na primeira caçada porque errou a flecha no lobo. Depois, foi linha de frente na Batalha de Azaz, onde não pôde desviar da lança porque viu a arma desfocada, duplicando-se de repente. Mais tarde, quase não descobriu o Brasil porque não distinguia um borrão da terra à vista.

De míope em míope, os genes da vista turva driblaram a seleção natural, cruzaram o oceano quando ainda se via tudo em sépia e vieram se manifestar em mim, embaçando minha visão de mundo em pleno século 21, distorcido por mérito próprio.

Devo a essa dificuldade de refração o meu modo de enxergar a vida, bem como o tique de ajeitar os óculos a toda hora, mesmo que já estejam em ordem.

Arrumar os óculos é, muitas vezes, o melhor gesto para disfarçar a solidão. Do mesmo modo que o fumante acende um cigarro, dá três tragadas e o apaga no poste para justificar estar ali, parado e sozinho, o míope põe os óculos contra a luz, identifica as áreas engorduradas e esfrega a blusa, repetindo o processo até se sentir confiante para assumir-se solitário. Então, pode se sentar tranquilo diante do mundo, à espera do encontro marcado com a mulher que, envergonhada, responderá a um elogio dizendo “imagine, são seus olhos”.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças. 

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Posted in: Crônicas