Amor e outras velharias [Raul Drewnick]

Posted on 10/04/2016

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Raul Drewnick*

Quando ofereci a alma ao amor, ele sorriu. Agradeceu, mas não aceitou. Disse que não se usava mais esse tipo de transação: tudo era resolvido só na esfera da carne, sem margem para complicações futuras. Deu-me uma piscada, perguntou se eu conhecia um bom motel por ali e, tomando-me a mão, quis saber onde estava meu carro. No meio do caminho, como se me oferecesse uma pechincha, sugeriu que, se fosse um carro espaçoso, talvez nem precisássemos de motel.

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Nietzsche fala da necessidade e da conveniência de se morrer a tempo. É um conceito sobre o qual não me cabe filosofar. Já morri há tempo.

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A poesia deveria fazer-se por si mesma. Qualquer sinal que um homem deixe num poema, uma vírgula que seja, traz sempre a suspeita de mistificação.

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Os escritores que planejam seus livros detalhe por detalhe me dão certa pena. São como crianças que, tendo à disposição toda a praia, se põem a calcular de quantos baldes de areia precisarão para erguer um castelo.

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Atirada para cima, a moeda não deu cara nem coroa, Imobilizou-se no ar, paralisada pela acrofobia.

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Do amor nós haveremos de falar sempre baixinho, como se estivéssemos velando o sono de nosso defunto mais querido.

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À meia-noite o fantasma não toca mais Clair de lune, desde que o gato preto passou a dormir no sofá da sala.

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Se aos poetas dessem a cada um uma enxada, como os ressentidos costumam sugerir, eles cavariam a terra para nela plantar as mais preciosas espécies de amor.

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Destroçado por uma rejeição amorosa, implorava em suas orações pela morte. Mas ela, assim como o amor, se fazia de surda.

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Às vezes, o que faz um livro ser definido como infantil não é o tema, é o escritor.

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O amor há muito tempo não é a mesma coisa, mas pedir em nome dele ainda rende alguma moedinha.

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Achava que psoríase era uma figura de lógica, até descobrir que era coisa muito pior.

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Quando se vê acuado, Deus invoca sempre o princípio da antiguidade.

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Estar deitado não basta. Nem fechar os olhos. O passo seguinte é parar de respirar. Depois, é só persistir.

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Ter existido um homem chamado Shakespeare, que fez o que fez, é quase tão inacreditável quanto existir Deus.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas “Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas