Cofre de emoções [Mariana Ianelli]

Posted on 09/04/2016

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Mariana Ianelli*

Dizia-se na família que a bisavó havia amado um primo chamado Randy, com quem não se pôde casar. Murmurava-se. Que a tia-avó também carregava uma paixão trancada, o Brás, condenado pelo tribunal doméstico por ser um homem afeito ao jogo e à bebida. À bisavó, coube-lhe ser madrinha do filho de Randy com outra mulher. À tia-avó, um casamento meio infeliz com tio Aldo e um filho perdido num acidente trágico, que ela chorou ao longo da vida por suas mãos de pianista obsessivamente fadadas aos noturnos de Chopin.

Outro assunto à meia voz, mais delicado que as paixões postas no escuro: os infantes defuntos. O da tia-avó, um anjo de alegria italiana que por um tempo fez prevalecer sobre os noturnos de Chopin canções de Pepino di Capri ao violão. E os infantes da bisavó, a menina Delza, que não falava nem andava, mas tudo via com seus grandes olhos azuis, e, dizia-se (murmurava-se), para o bem dela mesma, foi-se antes de tornar-se moça. E o menino Décio, que visitou por poucos dias este mundo e deu à bisavó um soneto perfeito, que lhe saiu não exatamente por dom poético mas dor de mãe.

Ficavam fechadas, essas emoções, forçadas a um sono parelho ao do esquecimento, como joias que são tão preciosas que estão vedadas à banalidade do uso. Emoções em que alguém mal quer tocar de novo, pelo tanto que doem, mesmo depois de décadas. Por que viria à tona um coração se está no fundo o que mais ama?, murmura o dono do seu cofre de emoções. Então a isso terminam reduzidos os pequenos fogos particulares sob os abafadores: a murmúrios, chispas, ecos de amores e memórias que, não resistindo à prosa dos dias, refugiam-se em chaves de ouro, versos, tesouros subcutâneos, que vez por outra ainda lampejam rapidamente graças à impostura investigativa de algum cronista insatisfeito com a vida em suas versões oficiais.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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Posted in: Crônicas