A ponte pênsil do Baependi [Elyandria Silva]

Posted on 05/04/2016

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Elyandria Silva*

Faz quinze anos que a conheci. Elas me assombram desde sempre, talvez de outras vidas. Nunca mais passei por lá, nunca mais tive aquele sensação. A ponte pênsil e seus balanços incessantes, o medo amarrado em nós mudos. O rio abaixo à espera das quedas gratuitas. Acima, o vai e vem das tábuas que fingem se soltarem entre um e outro passante. A arquitetura de uma bela ponte pênsil. Como elas foram feitas… não sei.

Éramos dois recém-chegados em Jaraguá do Sul. Solitários em nossos anseios, unidos pelas longas conversas, pelas afinidades, pelos planos, pelas incertezas. Naquele domingo decidimos almoçar juntos na casa dele. Teria frango, arroz, maionese. Faz tempo, não lembro direito, tudo indica que eu deveria levar a maionese. Não tinha carro, nem ele. “Fica bem pertinho, se você vir pela ponte em minutos estará aqui”. Ponte Jacob Alfredo Emmendoerfer, aquela que liga os bairros Baependi e Centro. Parada, com o prato de maionese coberto, paralisei. Era muito longa, lembro-me de pensar que não conseguiria. Estava quente. Uma mulher vinha de bicicleta e agradeci por não estar atravessando naquela hora. Admirei-a pela proeza quando passou por mim. Fiquei parada um longo tempo sem coragem de atravessar. Se desistisse o outro caminho seria longo e levaria muito tempo para chegar. A coragem veio do outro lado e me arrastou. Olhei bem antes para os dois lados da ponte, não vinha ninguém. O medo é patético quando nos cobre com uma capa de ilusão. Eu estava com a capa.

O planejamento era o seguinte: passar com as pernas abertas, segurar com uma das mãos a corda e com a outra mão o prato. Quando estivesse no meio balançaria demais e a ponte cederia; arrebentaria de algum lado me arrastando junto, o prato cairia rio abaixo e eu seguiria agarrada às cordas, em queda livre, gritando pelos ares. Ah, era como se a ponte não mais escondesse que me aterrorizava, o silêncio do desafio entre nós duas numa bela manhã de domingo. Meu amigo me esperava, o almoço, o frango, a fome. Numa eternidade incontida e feroz cheguei ao outro lado. Tremendo, cansada, suada, mãos sujas, coração saindo pela boca, às vias de um enfarte. Ninguém atrapalhou. Náuseas, vertigem, boca seca. Em nenhum momento olhei para baixo, ou para os lados, olhar sempre firme para frente, foco, concentração, o prato de maionese atrapalhou muito. Caminhei devagar, se corresse o balanço me derrotaria, poderia ser mortal, no meu caso.

Cheguei ao destino. Estava exausta. Almoçamos. Senti quando meu amigo foi embora da cidade. Ninguém nunca soube disso. Ninguém sabe do meu medo de pontes dessa natureza. Esses dias, vendo a foto e lendo a entrevista das pontes no jornal, o filme antigo voltou à mente. Tempos depois comprei um carro, ele uma moto. A ponte morreu na lembrança. Um mosaico de água, paus e cordas no esquecimento. Praticar arvorismo? Jamais! Eu desfaleceria lá em cima.

A ponte do Baependi não sabe que existo. Nunca me notou. Para ela tenho pouca ou nenhuma importância. Sem chance, para ela sou quase nada.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras.

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Posted in: Crônicas