Sinal vermelho [Daniel Russell Ribas]

Posted on 04/04/2016

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Daniel Russell Ribas*

Quando atravessar?… Este calor… Não aguento… Quanto tempo…?

Jeanne morava em Copacabana por metade de sua vida. Nascera e fora criada na França, de onde veio com o marido. Vinham com a promessa de fortuna nos trópicos, tanto financeira quanto sentimental. Lembrando-se agora, a ingenuidade que envolvia a viagem do casal era equivalente ao tédio que nutriam pelo outro e por suas vidas pregressas em geral. Um tédio que aos poucos se transformara em desprezo, pois ambos eram para o outro o reflexo de seu fracasso existencial. Mas eram também ingênuas, crianças adultas burguesas, para que o chamado a uma aventura do outro lado do mundo era irresistível. Seria, quem sabe, a redenção de procuravam como casal e individualmente.

Estabeleceram-se em um apartamento espaçoso em Copacabana e trouxeram uma mudança embalada em boas intenções. Se os objetos chegaram intactos a seu destino, o resto ficara preso em alguma alfândega dos sentimentos. O distanciamento e indiferença entre marido e esposa vieram junto, escondidos entre as cobertas e disfarçados inicialmente na burocracia e arrumação do novo lar.

Esses jovens imundos, com estas garrafas imundas na boca, escondidas dentro destas camisas imundas. Tão pequenos e sujos. Todo mundo vê, mas finge que não. Eles fingem que não querem ser vistos, mas se exibem com esta droga que tomam como mamadeira. Pés descalços nesse asfalto quente feito o inferno, como aguentam? Os pés são tão grossos, a sujeira faz uma camada na sola, como um chinelo de barro. Eles se drogam e não se importam com os pés que queimam. Cada queimadura fortalece os pés. Quanto maior a dor, maior o entorpecimento. E essas criaturas imundas se tornam mais resistentes e se multiplicam, mais drogadas e imundas. E aí, quando não vemos, nos atacam.

Foi no auge do alcoolismo de Jeanne que o marido se matou. Ligou o gás e enfiou sua cabeça no forno como um guisado. O primeiro pensamento que teve foi de alívio por não ter acendido um cigarro no apartamento antes que o corpo fosse descoberto. O segundo foi de terror: como pagaria as contas? Ela era uma dona de casa, não dominava o idioma, nem tinha feito amizades no país. Após enterrar o marido, procurou a embaixada, determinada a retornar e assumir seu fracasso. No lugar, apenas perguntou se eles poderiam lhe oferecer trabalho. Embora não tivesse criado laços com a terra, Jeanne sabia que estava sozinha, inquestionavelmente sozinha. Não importava mais. Optou por permanecer entre Sartre e Cartola se tornar um símbolo de que nossas experiências não nos moldam, mas nos moem.

É incrível o movimento por aqui. Nada para, mas nada fica. Um ônibus passa, dois ônibus passam. Depois, um ou três carros. Depois, mais dois ônibus. E mais carros. Todos diferentes, vermelhos, brancos, laranjas, mas todos iguais. Uma série de manchas barulhentas em alta velocidade, trotando indiferentes e grosseiras para lugar nenhum. Debaixo de céu que frita os sentidos. Quanto tempo?… Preciso atravessar…

Com o tempo, Jeanne se aposentou e se tornou professora de francês particular. Com a ajuda de conhecidos da embaixada, conseguiu um volume saudável de alunos e ordenado. Não gostava, nem desgostava de seu trabalho. Datilografar documentos em uma recepção ou corrigir redações, como tudo, eram apenas variações desinteressantes da mesma nota. Acordar, comer, trabalhar, comer, dormir. Por 35 anos, a exata idade com que desembarcara em busca do novo, encarava o mesmo reflexo. Sem acumular experiências ou tido uma epifania, resignou-se em envelhecer e esperar o dia em que não precisaria mais retornar à rotina.

Quanto calor… Aqueles jovens imundos drogados estão perto, nunca saíram de perto de mim… Minha vida toda… Quanto tempo? Pare de pensar! Você pensa o tempo todo e não faz nada! Faça. Atravesse.

Com a mente limpa e num estado de paz que sequer se recordava se havia tido, Jeanne atravessou a avenida com o sinal aberto. Por toda a vida, sempre andou na faixa, resignada. Esperava uma luz liberar para que pudesse seguir para longe da imundice e entorpecimento. Agora, decidiu que não tinha mais tempo. Após se deixar levar pelo impacto do ônibus, ela atravessou.

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Daniel Russell Ribas é membro do coletivo “Clube da Leitura” (http://clubedaleiturarj.blogspot.com.br), que organiza evento quinzenal no Rio de Janeiro. Organizou as coletâneas “Para Copacabana, com amor” (Ed. Oito e meio), “A polêmica vida do amor” e “É assim que o mundo acaba”, ambos em parceira com Flávia Iriarte e publicados pela Oito e meio, e “Monstros Gigantes – Kaijus”, em parceria com Luiz Felipe Vasquez, pela Editora Draco. Participou como autor dos livros “Clube da Leitura: modo de usar, vol. 1”, “Lama, antologia 1” (publicação independente), “Clube da Leitura, volume II”, “Sinistro! 3”, “Ponto G” (Multifoco), “Caneta, Lente & Pincel” (Ed. Flaneur), “Clube da Leitura, vol. III”, “Veredas: panorama do conto contemporâneo brasileiro” e “Encontros na Estação” (Oito e meio). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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