A Bahia em dias nublados [Alexandre Brandão]

Posted on 03/04/2016

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

Ao João, que me proporcionou a viagem.

O poeta Carlito Azevedo postou no Facebook a história de uma bailarina russa de noventa anos que afirmou, em entrevista, que os melhores anos de sua vida haviam sido os vividos entre 1936 e 1942. Justo quando ocorreram os expurgos de Stálin e grande parte da Segunda Guerra?, reagiu o entrevistador. Para a bailarina, não havia mal nenhum nisso já que, naquela época, ela era jovem e bela, o que bastava. O intuito de Carlito era dizer que, apesar da espessa nuvem que cobre os dias de 2016, nada impede que, nele, cada um de nós possa ser feliz. Seu otimismo tinha a ver com a beleza do outono, que chegava. Otimismo relativo, Carlito alertava, agarrado a Drummond, haja vista que a felicidade coletiva estava transferida para o próximo século.

O país de fato está capengando, mas eu estive na Bahia. Eu e meu filho mais velho, o bom João. Lá, reencontrei meu primo Fernando e também o amigo Ricardo. Lá, fui conhecer a Praia do Forte e o projeto Tamar. Lá, depois de mais de trinta anos, voltei a Morro de São Paulo, agora uma ilha toda incrementada, cheia de vida e luz, tão diferente daquela da qual saí justo no dia em que a eletricidade chegava para os ilhéus. Dela, minhas lembranças eram um misto de pôres do sol, pratos feitos de siri catado, praias vazias e morcegos. O pôr do sol está lá intocado, ninguém brinca com ele. Come-se bem — só que não me ofereceram PF de siri —, ainda é possível encontrar um naco de praia vazia (distante), mas os morcegos retiraram-se, sobrou-lhes menos espaço. Assim é, quando o homem, munido de luz, toma conta de tudo.

Eu e meu filho somos pessoas caladas, o que nos torna contempladores da natureza, caminhantes incansáveis. Na Bahia, quando foi preciso, tomamos decisões (regadas a cerveja e falando baixo) que garantissem exclusivamente o descanso, o desfrute do nada. É certo que olhamos as mulheres, mas, sendo homens que não gostam de esbravejar, de falar a linguagem de macho conquistador, lá pelas tantas, não na hora H — no momento do desfrute visual, um ou outro comentava que não era pequeno o número de meninas bonitas, argentinas, na maioria. Morro de São Paulo parecia um território argentino (um pouco uruguaio, quem sabe). Jovens e outros nem tão jovens circulavam pela vila, e o espanhol ecoava livre pelos becos. Ouvi alguns baianos indo além do portunhol, gente preparada para receber turistas. Em certas lojas e restaurantes, vi placas escritas no que me pareceu árabe e que depois soube era hebraico. Contam que os israelenses visitam muito o lugar. Bobo de quem não o visita. Há muita gente para pouco espaço, é verdade, mas a beleza compensa a muvuca.

Falei dos gringos, mas os baianos estão lá, negros e bonitos. Jovens fortes — mulheres altas, de pernas rijas (resultado de tantos morros no caminho diário). Muitos rapazes vivem de carregar malas e mercadorias em carrinhos de mão, um dos meios de transporte mais importantes da ilha. (Há, ainda, um trator para recolher o lixo e transportar alguma mercadoria mais pesada, poucas motos e algumas bicicletas, todos alocados nos serviços de utilidade pública). Tudo bem organizado, com trabalhadores credenciados. Isso me fez pensar se essa não é uma tarefa pesada demais para alguns jovens e para outros que estão numa idade “muito” adulta. Por outro lado, o que seria deles sem isso? As agruras da realidade sempre vêm cobrar meu posicionamento. Sem resposta, volto, não como fuga, ao belo.

E como é belo aquele pedaço de terra que recebeu cedo os portugueses. Aprendi em um fôlder que Martin Afonso de Souza aportou por lá em 1531 e batizou a ilha de Tynharéa, hoje Tinharé. Por sua localização (na chamada barra falsa da Baia de Todos os Santos), a ilha esteve envolvida em muitos conflitos, ora com franceses, ora com holandeses que procuravam atacar a colônia portuguesa. Na internet, por sua vez, afirma-se que ali Hitler teria afundado submarinos brasileiros, forçando nossa entrada na Segunda Guerra. Nada disso, porém, destruiu o lugar; não sei se o turismo, as construções de pousadas e casas conseguirão fazê-lo, ao poluir as águas com esgoto não tratado, por exemplo.

Venho fazendo tudo para falar do belo e, nos últimos parágrafos, esbarrei em senões. Não tem nada a ver com os tropeços do país, é coisa minha, um pessimismo miúdo que gosta de furar os olhos da minha fé na vida. Tenho muito a aprender com a bailarina russa, mas ela não está entre nós, imagino. Se estiver, saberá ensinar? É matéria que se ensine? Que se aprenda?

Eu e João, ao sairmos do hotel, levávamos em uma bolsa térmica meia dúzia de cervejas. Quero dizer com isso que, mesmo diante da crise, há meios de fazer uma viagem não tão dispendiosa e, assim, garantir uma dose de alegria e encantamento. Quando a realidade não me deixa esquecer, sei muito bem disso.

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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Posted in: Crônicas