Cruyff e a crônica [Rubem Penz]

Posted on 01/04/2016

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Rubem Penz*

Eu jogava 87 minutos de uma partida para o time  e três                   para mim – e nesses três mostrava do que era capaz.

Johan Cruyff

Sempre que me perguntam o que é importante para ser um bom cronista e, por extensão, um bom escritor, digo que é o total respeito ao texto. Quase uma veneração. Junto a isso, despir-se de vaidade: a obra deve se sobrepor à presunção do artista. Apenas a elevação de uma, com sorte, fará o outro grande. Jamais o inverso. E não é isso que vemos vez por outra.

Aprendi com o mestre Luiz Antonio de Assis Brasil a evitar as “literatices”, estruturas de efeito construídas muito mais para mostrar o escritor – do que ele é capaz, de como é culto, experiente, hábil – muito menos contribuir para a fluência e o sentido da mensagem. Pior: literatices incidem na temeridade de reproduzir evidentes clichês. Nada tenho contra estruturas plagiadas, complexas ou experimentais. Porém, é preciso cuidar a quem elas estão servindo. Fazer embaixadinhas no centro do campo quase nunca tem serventia.

Rubem Braga, utilizando-se da forma como o pavão compõe seu esplendor (água e luz), enalteceu a simplicidade intrínseca do grande artista. O belo nasce no singelo. Nosso desafio, também. A crônica existe para oferecer instantes de contemplação ao leitor mais arisco e infiel do mundo – aquele diante do jornal. Somos quem distribui o jogo, e nosso leitor nem sempre (ou quase nunca) será o artífice das grandes jogadas. Fazê-lo comemorar o gol ao final, sorrindo, é nosso compromisso. Nosso dever de ofício.

Toda essa crença, no entanto, sofreu um pequeno abalo ao ler a declaração de Johan Cruyff, na qual ele confessa deixar um pequeno espaço para si durante a partida de futebol. Para seu prazer, para testar os limites, para fazer o inesperado. Logo ele, um dos criadores do futebol coletivo! Revendo minhas posições, dou o tornozelo a torcer: um cronista tanto pode, quanto deve deixar-se iluminar por um instante. Seja numa crônica exótica ao conjunto da obra, seja numa frase de efeito. Há de fazer um bem danado!

Com habilidade e precisão, frases brilhantes podem pifar o centroavante; fazer nosso leitor sentir uma sutil vertigem de um toque mais ousado; cativá-lo para voltar no dia seguinte, na próxima semana. E, ainda que nada disso aconteça – quando não um pequeno desastre –, seremos perdoados pelos 87 minutos de dedicação à arte. Cruyff escreveu isso com seus pés.

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Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro o Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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