Sapatos pendurados [Guilherme Tauil]

Posted on 29/03/2016

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(Imagem: Bernardo Ceccantini)  

Guilherme Tauil*

É claro que o bairro de Pinheiros, em São Paulo, e o município de Cristalina, em Goiás, devem ter mais em comum além dos tênis dependurados nos fios telefônicos, mas, no momento, é a única coisa que me ocorre. Só depois de ver pisantes atrelados à fiação goiana, onde não me ocorreria que as pessoas também lançassem seus calçados pelos ares, é que me dei conta de que essa imagem me acompanhou a vida toda.

Sempre houve um par de tênis flutuante por onde quer que estivesse. São as orquídeas urbanas, balançando conforme a necessidade, numa petulância vegetal. Nunca vi, porém, quem as plantasse. Deve haver algum tipo de código entre os praticantes. Chinelo, por exemplo, não pode. Não se vê bota nem pantufa. E nem sempre o sapato está em condições ruins, o que me leva também a questionar o motivo dessa intervenção quase artística.

A explicação lógica seria a maldade: um grupo de garotos fortes encurrala um gordinho e o obriga a desavergonhar os pés. Como nunca conheci quem tivesse os calçados subtraídos, não acolhi a hipótese de primeira. Não pode ser só isso. Existirão tantos bulinadores insensíveis ao solado assim no mundo? Por sorte, descobri não ser o único a encafifar com a questão: Matthew Bate, diretor de um curta sobre o mistério dos tênis voadores, divulgou um telefone na imprensa para onde pessoas que catapultaram sapatos podiam ligar e deixar seu depoimento.

Um rapaz contou que isso fazia parte de uma tradição entre amigos – quem perdesse a virgindade deveria também perder um par de tênis. Outro, que sua gangue usava os flying snickers para se comunicar, cada cor com seu significado. Alguns disseram que jogaram sem motivação nenhuma. Só para deixar sua marca na cidade, assim como quem grafita um muro ou crava as iniciais em uma árvore.

Deve ser por isso que o hábito não some: cada um dá sua própria explicação para o mistério, de modo que a única resposta possível para quem se pergunta o que diabos significa aquilo pendurado nos fios é “sei lá”. Cada qual que saiba dos seus sapatos. Eu mesmo, tendo constatado que não deixarei obra alguma para a humanidade, de repente posso me perpetuar atirando minhas solas para o alto. De hora em hora riria satisfeito, em silêncio, imaginando que alguém estivesse olhando pra cima meio confuso. É bonita a imagem, pelo menos: depois de muito pisar o chão, para sempre flutuar no céu.

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* Guilherme Tauil é cronista e editor da Zepelim, casa focada na publicação da crônica contemporânea. Formado em Letras pela USP, é autor de “Sobreviventes do verão”, compilação de crônicas escritas para a imprensa de Taubaté. Mantém o blog quartacapa.com e o maior acervo digital sobre Chico Buarque, o youtube.com/tauil. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças. 

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Posted in: Crônicas