Naquela idade [Cássio Zanatta]

Posted on 28/03/2016

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Cássio Zanatta*

Naquela idade em que ainda se tem vontade de tanta coisa, ainda que algumas delas não seria direito. Mas nessa idade, não se tem mais tanta certeza assim do que é ou não direito.

Na idade de ainda se encantar com os sustos. De ficar meio triste domingo à noite e todo pimpão a partir de quinta. Mais com olhos para chupar caju, ver as cores todas do caju, do que dar palestra. De caminhar na calçada e ser ultrapassado por todo mundo. De fugir de reunião para ir ao cinema. Tudo ainda não fiz.

Na idade do check-up deixar de ser mera prevenção. De achar bocós as importâncias. De ter um certo pudor em se declarar – mas menor que o de não se declarar, então lascou-se.

Idade de reler, mais que ler. Poesia do que relatórios. De lembrar, mais do que esquecer. E cada vez esquecer mais. De ouvir menos pop e descobrir mais Satie. E achar que esse moço andou plagiando uns ventos que sopravam em manhãs frias.

A idade em que as meninas ficam cada vez mais bonitas e a gente, mais invisível. Meio transparente, meio assombração. A não ser quando elas querem saber se o 264, que vai para o Centro, sobe a Augusta.

Na idade em que você se lembra de algo gozadíssimo que passava na televisão em 1980 mas ninguém em volta faz ideia do que você está falando. A idade em que, nas reuniões de amigos, as risadas de sempre convivem com uma nova e desconhecida melancolia.

Idade em que as propostas de emprego rareiam e é meio constrangedor esperar na recepção. Na idade em que é chamado de mestre mas, por favor, entenda, não é que você seja mesmo bom no assunto, é por consideração – afinal, você está há muito tempo nessa idade.

Na idade de ter sono depois do almoço e ele não dar as caras de madrugada. Na idade de morrer de pena de quem morre de trabalhar. Na idade em que alguns mortos me fazem mais companhia agora do que quando estavam por aqui. O problema é que alguns são muito tagarelas.

Na idade de fazer contas para ver se a idade é essa mesmo. De ter um cachorro, aprender piano, ficar vermelho de vergonha, rir, rir, rir e ir conhecer Moscou. De aprender, tropeçar e recomeçar. De preferir sorvetes cítricos aos cremosos. De preferir os jogos desimportantes, com o estádio vazio, do que os clássicos e decisivos. E jamais deixar de comer torresmo, ainda que cause alguns revertérios.

Ainda não estou naquela idade. Mas já estou nessa idade.

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* Cássio Zanatta é cronista. Já foi revisor, redator, diretor de criação, vice-presidente de criação e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar. É natural de São José do Rio Pardo, SP, o que explica muita coisa.  Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras. 

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